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crônica narrativa

Jango

— O cachorro acabou de falar comigo, Reginaldo!

— Sueli, o cachorro tem nome. É Jango. E não, ele não falou coisa nenhuma com você.

Tudo começou quando o Jango se instalou em casa meses atrás. Logo que os meus pais chegaram em casa com o filhote de vira-latas, todo encolhido na sua caixa de papelão, onde se contorcia em posição fetal, eu já achei que aquela bolinha de pelos tinha algo de curioso.

— Ele falou, Reginaldo. Ele me chamou de bruxa!

Naquela ocasião, o Jango — supostamente nomeado pelo papai em homenagem ao presidente deposto em 64 — me pareceu assustado com o novo lar e manteve a cabeça enterrada entre as patinhas. Mas eu, intrigado com o novo habitante da nossa casa, fitei-o longamente mesmo quando meus pais perderam o interesse na novidade canina e foram fazer o que quer que adultos precisassem fazer. Foi aí que o Jango levantou a cabeça, olhou-me de volta e piscou para mim.

— Você tá doida, Sueli. Ele é um cachorro e não um papagaio.

— Ele latiu e me chamou de bruxa! Depois que eu briguei com ele por morder as minhas pantufas.

Algumas semanas depois da sua chegada, o Jango começou a fazer o que todo filhote faz de melhor: xixi e cocô no lugar errado. Mamãe tentou de tudo para impedir que os seus tapetes caríssimos fossem maculados pelos dejetos do vira-latas. Ela premiou o Jango com biscoitos depois de acertos, puniu-o com chineladas quando o pior acontecia e, entre um e outro, xingava o papai pela ideia de ter adotado um cachorro.

Foi quando o meu vira-latinha fez outra coisa inusitada. Ao escutar as reclamações de mamãe durante um almoço de domingo, o Jango, então dormindo-ouvindo a nossa conversa, levantou-se de sua caminha, foi até a mamãe e começou a esbravejar com ela.

— Reginaldo, ele ouviu a nossa conversa! — mamãe disse entre um latido e outro.

— Claro que ouviu, Sueli. Cachorros têm uma ótima audição.

— Não, Reginaldo! Ele entendeu que eu estava reclamando dele.

De lá para cá, foram vários sinais: bocejos, espreguiçadas, caminhadas sobre duas patas. Mamãe assistia a tudo horrorizada.

Naquela última noite, mamãe preparava o jantar na cozinha e papai estava comigo no quarto, ajudando-me com a lição de matemática. Foi quando ouvimos latidos caninos e gritos humanos. Ao chegarmos na cozinha, vimos que o Jango tinha estraçalhado uma das pantufas da mamãe. Ao que ela havia ralhado com ele, como de costume. E aí, ele retrucou, xingando-a de bruxa. Ou assim jurou a mamãe.

— Sueli, isso não é possível…

— Eu quero esse cachorro no quintal a partir de hoje! Se ele entrar nessa casa uma vez que seja, eu vou para o apartamento da minha mãe e de lá não volto!

Papai não sabia o que dizer. Entre as falas histéricas da mamãe e os latidos exasperados do Jango, ele me pareceu, contudo, esconder um sorriso. O que se passava pela sua cabeça?

— Sueli, você está muito nervosa. Talvez você deva ir se deitar um pouco.

Quando mamãe foi para o quarto, eu saí atrás dela rumo à sala. Ao deixar a cozinha, olhei para trás, como que para assimilar o ocorrido. Foi quando vi o Jango piscar para o papai. E ele prontamente lhe respondeu, abrindo um sorrisão.

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