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crônica

Isso é apropriado para a sua idade?

Já ouvi essa pergunta de muita gente. Outras pessoas que conheço também já ouviram. Invariavelmente, todos estão sujeitos a esse questionamento tão indelicado e cruel.  

Outro dia desses, eu estava andando com um amigo na rua e vimos uma mulher de meia idade na calçada oposta. Ela vestia uma blusinha de alça e uma bermuda jeans. “Essa mulher deve pensar que tem dezoito anos”, esse meu amigo me disse assim que ela se afastou.

Outra vez, ao assistirmos ao noticiário na tevê, eu e meus pais vimos a imagem de Rudy Giuliani, advogado do presidente americano Donald Trump, suando frio numa entrevista coletiva. Filetes de tinta escura escorriam dos seus cabelos e marcavam o seu rosto. “Esse cara deve pintar o cabelo. Ele já deve ter mais de setenta! Fica bem estranho nessa idade”, meu pai disparou ao contemplar a imagem.

E, há alguns dias, contei à minha mãe que sonhava ter um cachorro. “Filho, você não é mais criança”, ela ponderou ao me encarar com seriedade.

Isso sem falar nos namorados com mais de trinta ou quarenta anos. Já passou da hora de noivarem! De casarem! De terem filhos!, as pessoas muitas vezes pensam e falam.

Ok, ninguém escapa de um rótulo. E não é exatamente novidade o fato de que muitas pessoas por trás dos julgamentos gostam especialmente de comparar nossos hábitos e nossas preferências com a idade que temos.

Mas por que essas pessoas se aventuram a dizer se já é hora de casarmos? Ou se já passamos da idade de termos um cachorro, de usarmos determinadas roupas ou de pintarmos o nosso cabelo?

Não estou criticando meu amigo, meus pais ou as pessoas em geral. Afinal, quem nunca julgou as ações dos outros que atire a primeira pedra.

Eu mesmo me apego a inúmeros estereótipos sem perceber. Por exemplo: quando me dava conta nos tempos pré-pandemia de que estava com vontade de sair para alguma balada, eu mesmo me repreendia: “Guilherme, você não tem mais idade para isso. Sossegue.”

Acho bastante curioso o fato de que, ao mesmo tempo em que somos cruéis conosco a ponto de determinarmos categoricamente a idade certa e o prazo de validade dos nossos desejos e costumes, parece-me que muitas vezes tentamos compensar sendo ingenuamente gentis e acabamos aceitando bordões rasos e igualmente estereotipados. Como “Jovens para sempre”, “A terceira idade é a melhor idade” e “Tornar-se adulto implica assumir responsabilidades”. Quem nunca?

Pergunto: a juventude é um estado biológico? Mental? Espiritual? Queremos – e devemos – pensar e agir como jovens por toda a vida?

E a melhor idade? É aquela que já vivemos e da qual temos saudade ou é aquela em que estamos? Ou que imaginamos um dia ainda alcançarmos? Ou ainda: seria a melhor idade aquela que compra produtos de segmentos específicos de empresas que nos têm como público-alvo e que nos incluem nos seus anúncios tão cativantes?

Todo adulto é responsável? Podemos ser responsáveis antes de nos tornarmos adultos? Podemos nunca assumir responsabilidades para valer?

Evidentemente, nada é puro e simples. E os rótulos, estereótipos e as jogadas de marketing existem porque, creio eu, muita gente os aceita inconscientemente e sem se dar conta do mal que eles podem causar.

Que tal tentarmos combater esse tipo de repressão? E se começarmos recapitulando em alto e bom som tudo o que os outros julgam apropriado para a nossa idade?

Vejamos o meu caso. Com vinte e oito anos, eu supostamente devo estar prestes a viver a minha crise dos trinta. Devido ao avançar da minha idade, devo desistir de ter um cachorro, preciso aceitar as minhas responsabilidades, deveria tentar viver como um jovem para sempre – mas sem esquecer de me vestir como um rapaz de trinta e não como um jovenzinho de dezoito anos, evidentemente – e, se eu quiser casar e ter filhos, eis a hora-limite. Ah, e se eu quiser esconder os primeiros fios brancos que surgem na minha cabeça, a hora de pintar o cabelo é agora e não daqui a quarenta anos. Como isso tudo soa?

Não podemos carregar esses fardos. Deixemos de ser tão cruéis.

8 respostas em “Isso é apropriado para a sua idade?”

Eu te entendo, meu querido. Passo por isso todos os dias. Eu me cobro muito e me pressiono demais. Porém, quando se trata de “idade”, tudo isso vem dos outros mesmo. Eu gosto de viver os momentos e fazer as coisas que não pude fazer antes por uma série de fatores. Antes, eu não podia porque não tinha dinheiro, tempo e pessoas para me acompanhar. Hoje, quem me dizia “não” continua com a mesma postura, só os “motivos” que mudaram. Eu posso ter dinheiro, tempo e autonomia, mas a “idade” já passou. Os comentários do tipo: “Você já é grande demais para isso”, “Você não tem mais idade para querer aquilo” vivem no meu pé. Felizmente, não me sinto mais incomodado e muito menos impedido de fazer o que eu gosto por causa disso. Tanto que estou aqui, lendo seu texto com meu Yakult pela metade. <3

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