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crônica

In loco

— Amor, cheguei! — ouço a voz da Larissa vindo de baixo. Não vou responder. Tem lugares onde é melhor a gente ficar só. E é neste lugar que eu me encontro. Não é por nada que em alemão usamos a expressão “lugarzinho silencioso”; porque aqui podemos efetivamente ficar sozinhos e em silencio, sem necessidade de se reportar pro mundo exterior o tempo todo. Aqui as necessidades são outras. Então não vou responder. Já já vou descer e cumprimentá-la devidamente, com beijo e tudo. Paciência.

Mas ela cresceu numa casa pequena, dividindo o quarto com os três irmãos mais alguns primos, e não sabe de lugarzinhos silenciosos.

— Oi, amor?!

A voz aumentou. Pior que agora essa pressão toda está dificultando meu desempenho. Sinto-me tentada a mandar ao menos um oi porta-pra-fora e escada-pra-baixo, ver se ela me concede mais cinco minutinhos de paz enquanto encerro o negócio que está requerendo toda minha concentração e força de vontade. Da cozinha chega o tintilar de pratos e panelas, e deduzo que Larissa está começando a ajeitar as coisas para o almoço. Fecho os olhos, foco na respiração e tento alcançar o estado de vazio interior. Inspiro, expiro, inspiro, expiro. Sinto que meu sistema está voltando a funcionar, quando…

— AMOOOOOOOOR!!!

— Pelo amor das deusas, para que essa gritaria toda? — cumprimento Larissa dois minutos mais tarde na cozinha, já sem vontade de beijo nem nada.

— Você não me respondia… Onde você tava?

— No banheiro, onde mais ia estar?

Ela hesita durante um instante, procurando uma resposta convincente.

— Sei lá, eu fico logo pensando que você fugiu pra Alemanha ou algo assim.

Nem ela mesma consegue segurar o riso.

— Olha — retruco — vou usar isso contra você!

O bom é que essas besteiras pelo menos rendem umas crônicas. É o outro jeito de alcançar a paz espiritual.

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