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Hábitos Higiênicos

É curioso como os brasileiros recebem a fama de ser um povo limpo. Essa popularidade não é à toa. Desde pequenos, escutamos dos nossos pais os comandos “vai tomar banho!” ou “já escovou seus dentes?”, necessários para nossa higiene pessoal. 

Tal hábito passou de geração para geração, e essas frases, que escutei quando criança, por anos, as repeti em minha casa, transmitindo os mesmos ensinamentos aos meus filhos. 

Os temas limpeza e higiene ultrapassam fronteiras, e comparações entre povos tornam-se inevitáveis. São inúmeras as experiências que comprovam essas crenças. Pessoas que culturalmente têm fama de tomar pouco banho e se perfumar para camuflar odores desagradáveis. Outros que se espantam quando percebem que há pessoas escovando os dentes depois do almoço no banheiro do trabalho.

Para quem foi criado em lugares quentes, no meu caso o Rio de Janeiro, onde os termômetros no verão ultrapassam os 40 graus, tomar diversos banhos diários é quase obrigatório. E esse hábito acaba criando uma necessidade fisiológica, os banhos tornam-se quase uma obsessão. 

Outra cena grotesca que me tira do sério é estar em um banheiro público e testemunhar alguém sair da cabine privada e não lavar as mãos. Ao menos para isso serviu a pandemia, para criar consciência da importância de higienizá-las! O fato é que estou cada vez mais convencida de que nós, brasileiros, somos mais sensatos que outros povos no que diz respeito à limpeza. 

Para corroborar tudo o que escrevi até agora, gostaria de relatar uma experiência que vivi em janeiro de 2001, quando fui ao Chile com meu marido. Visitávamos a cidade de Pucón, famosa pela proximidade com o vulcão Villarrica. Um dos pontos altos do passeio é a subida, a pé, até a cratera do vulcão ainda ativo. Éramos poucos brasileiros no grupo de aproximadamente 20 pessoas. A jornada consistia em uma caminhada de seis horas, somente para subir. Como teríamos que almoçar no meio do caminho, recomendaram que levássemos um lanche. 

Organizei uns sanduíches de atum, umas bananas e umas barras de cereais. Tudo prático e bem embalado, com guardanapos, para que pudéssemos assegurar a qualidade dos alimentos na hora do descanso. 

Assim como programado, chegamos ao local marcado para a partida antes das seis da manhã. Os organizadores nos entregaram uns macacões fedorentos para vestir sobre a nossa roupa. “Uso obrigatório”, explicou o rapaz. 

A roupa nos protegeria do sol e da neve perpétua no topo da montanha. O mau cheiro era insuportável. Percebíamos que as vestimentas raramente eram lavadas e notei que somente os brasileiros pareciam se incomodar por serem obrigados a vestir o uniforme. 

Se os macacões eram pouco lavados, o que dizer das luvas entregues, também de uso obrigatório? Estou certa de que essas, sim, nunca haviam sido lavadas. Colocá-las era um verdadeiro martírio. Mas, como tudo na vida é uma questão de costume, não demorou para que nos familiarizássemos com o novo cheiro impregnado em nossa pele. Passados alguns minutos já nem sentíamos mais.  

Depois de horas caminhando, chegou a hora do almoço. Meu marido e eu nos acomodamos no piso. Tiramos cuidadosamente os sanduíches do plástico. Desembrulhamos o invólucro de papel alumínio com cuidado, para garantir que não tocaríamos em nossa comida com aquelas mãos nojentas, necessitadas de água e sabão. Mas, antes de começarmos a comer, uma cena bizarra nos chamou a atenção. 

Um casal europeu, cuja nacionalidade não posso garantir, sentou-se perto de nós. Com tranquilidade, começaram a se organizar para preparar a sua refeição. O jovem rapaz, que não tinha mais do que vinte cinco anos, possivelmente tinha as mãos tão sujas quanto as nossas, mas parecia não se incomodar com esse detalhe. Iniciou o processo retirando da mochila um pacote inteiro de pão de forma. Em seguida, uma embalagem fechada de queijo fatiado e outra, também lacrada, de presunto. Agarrou um pote de molho rosé e, como se tudo isso já não fosse o suficiente, buscou no fundo da bolsa um solitário tomate, largado ali. 

Na perna esquerda, que mantinha esticada, ele apoiou as fatias de pão e empilhou os ingredientes, um a um, produzindo dois volumosos sanduíches. Incrédulos, olhávamos o elaborado processo gastronômico praticado a mais de dois mil metros de altura, ao mesmo tempo em que nossos traseiros adormeciam gradualmente, por estarmos sentados na neve. 

Similar ao que faria em uma operação de guerra, o rapaz equilibrava os dois sanduíches em uma perna. Enquanto isso, na outra perna da calça imunda do macacão alugado, apoiou o tomate e, com um canivete suíço, fatiou-o com precisão. Por fim, para arrematar o sanduba, tirou umas folhas de alface de dentro de uma embalagem plástica e as posicionou por cima de tudo. Fechou a torre de alimentos com outra fatia de pão recém retirada do pacote. Entregou um sanduíche à namorada, enquanto devorava o outro com entusiasmo.

Por alguns segundos, invejei-o por seu desprendimento. O fato de não se importar com as mãos sujas para manusear os alimentos ou, até mesmo, com a roupa imunda para apoiá-los fazia com que eles desfrutassem com prazer daquele lanche, enquanto observavam a beleza do alto da montanha. Enquanto isso, nós, obcecados pela higiene, aproveitávamos a vista ao mesmo tempo em que tentávamos não encostar nas bordas dos nossos sanduíches.  

3 respostas em “Hábitos Higiênicos”

Os seus contos quase sempre me deixam com a sensação de que você poderia continuar mais um pouco. Uma sensação de quero mais….É, mas deixa para o próximo conto…

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