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crônica

Há coisas que precisam irremediavelmente ser ditas

Abster-se é cruel.

De palavras, de cigarros principalmente. Faz dias que venho me preparando para abrir a boca – há coisas que precisam irremediavelmente ser ditas e riscos que devem ser calculados. Estou decidida a contar sobre os sonhos que vem me tirando o prazer de viver, sobre como minha asma crônica andou piorando nas últimas semanas e que já não fumo há setenta e duas horas mas agora eu desisto, preciso de um cigarro! Questão de vida ou morte! Há coisas que precisam ser ditas, mas ela certamente não ouvirá nem metade da história: já vai desabar de véspera, mascarada, como sempre, cheirando a gim com limão siciliano, um pranto infinito escorrendo pela cara e a cara escorrendo pelo meu ombro. Acho que não suporta saber que sofro ou como sofro, mas não tem jeito: há coisas que…. Com alguma boa vontade, não a culpo, ela começará o clássico espetáculo de atrair as atenções para si, bem pedante, bem atriz, bem leonina com lua em gêmeos, e, lindíssima, se lamentará por cada mínimo aspecto da vida, até o que lhe é desconhecido – bem sei que ela odeia não poder saber de tudo. Depois de suficientemente lavada de lágrimas, certamente fitará o nada por longos segundos que sei que ela considera poéticos, por isso sagrados, antes de dizer que vai pintar o cabelo, lançar uns quadros à lá Pollock e finalmente mudar de vida, é isso honey, mudar de vida pra depois me matar, céus, eu conheço esse discurso melhor do que conheço a mim mesma!! Começo aqui a culpá-la por pequenas intempéries, mas conservarei meu silêncio imaculado só por educação: aprendi de cedo a respeitar qualquer dor de qualquer um. Sei que ela igualmente está abstinente, vem tentando largar as paradinhas pela terceira vez só essa semana e também eu tenho minha parcela de culpa, ultimamente ando meio sem saco pra tudo, me apoiando demais nas tiragens do tarô de Marselha ou do baralho cigano, depende da fase da lua e da cotação do dólar, of course. Aí ela projetará o queixo pro alto, certeza!, decidida a emplacar um drama meio racional como só ela é capaz e acabará profetizando, sem saber, tudo o que já aconteceu, até começar a vidrar novamente os olhos, dessa vez cravados dolorosamente dentro de mim …sabe como é my dear, a verdade por trás dessa loucura toda é que nada vai mudar, n-a-d-a, você consegue olhar nos meus olhos mas bem no fundo mesmo e afirmar que há aí dentro qualquer pretensão de transformar profundamente o curso das coisas?, não vale o sacrifício, sejamos muito sinceras, apoiemo-nos no destino e tudo parecerá mais fácil, não é mesmo? ah, você precisa acordar amorzinho, por favor abra os olhos (ela diz), por favor não me acorda dessa vez (eu suplico), eu de fato sei que nada muda, ok, a existência só se recicla porque ninguém tem força ou tempo de pirar em novas invenções, mas, pelo amor de qualquer coisa, só me deixe dormir até mais tarde um dia que seja, não pode ser pedir demais!, e ela continua e continua e continua, parece ter encontrado uma veia mórbida de empolgação, você deveria ser menos extremista, ler mais os homens, praticar um outro tipo de desprezo, algo menos cristão, e, DEFINITIVAMENTE, deveria parar de fumar apesar de que eu entendo o estado constante de surto que nos faz retornar sempre para os mesmos silêncios confortáveis, as mesmas mentirinhas autoinfligidas, as paranoias de estimação… essas eu venho guardando num lugarzinho especial desde as eras mais remotas… e essa coisa de se perder no personagem anda em voga nesses tempos mortos que estamos vivendo mesmo, acontece, ai ai, tá calor demais aqui, não consigo ter um pingo de temperança num clima desses…………..

            Pausa nº1:

            Respiro.

(Nesse momento, troco Coltrane por Ângela Rô Rô na vitrola e a temperatura parece amenizar um pouco)

olha, não me entenda mal, se você tem fé em alguma coisa, eu não quero te destruir, eu te amo e preciso que a sua vida seja repleta de coisas bonitas, eu tô soando pueril demais?, a questão é que eu não lembro de como são as coisas bonitas!!!!, eu tô cansada, chata, tô burra, com sono e mais estoica do que nunca………………

            Pausa nº2

            respiro, me sinto subitamente minúscula escondida atrás da música, atrás da tarde abafada, atrás da pose falsamente despretensiosa de intelectual que me conferem os óculos de tartaruga. Ela agora tem olhos mortais, já não chora mais. É como se nunca tivesse chorado.

            Pausa nº3

            respiro mais uma vez – tem alguma coisa que eu possa fazer? – pergunto a ela de forma quase imbecil. Diante do silêncio que recebo como resposta, calculo o risco antes de começar finalmente a contar sobre como me afetam meus pesadelos e a falta de nicotina, mas sempre fui ruim em matemática. Era mais ou menos o seguinte: sonhei que acendia um cigarro e não conseguia termina-lo, talvez isso diga muita coisa sobre esse meu momento e….

Errei os cálculos.

Há coisas que…

O refluxo de todo o vinho que ela bebeu ontem começa a revirar também o meu estômago, ela percebe e me rouba mais uma vez, não me deixa nem com meu próprio mal-estar a desgraçada, desaba de caso pensado em mil você precisa se colocar no lugar do outro, amorzinho, por deus que precisa!! noite passada eu também sonhei que fumava um cigarro pela metade, só que havia algo me queimando as entranhas, faz ideia? eu não sei o que era, mas tinha gosto de maçã, você não queira saber como dói ter uma úlcera!, tanto que eu precisei sair correndo, corri muito, fiquei sem ar, na minha cabeça tocava sem parar alguma canção estranha sobre cemitérios e eu achei que meu nariz pudesse estar sangrando, talvez fossem os ouvidos, você sabe que eu ando sempre à beira da morte, não tem jeito, e continuei correndo e tremendo sem parar, tremendo muito e secando o sangue com as costas da mão, eu podia sentir o gosto mas não via nada, minhas mãos estavam sujas sempre só de terra, ufa!, despertar as vezes pode ser terrível! levantei sem dar bom dia a ninguém, fui direto terminar o cigarro que não consegui fumar em sonho.

Pausa final:

Ela respira longamente.

Eu estou completamente sem ar. Quero destruí-la, trucidá-la, com crueldade. A filha da puta me olha com a satisfação de quem, finalmente sabe de tudo: há coisas.

– Porra cara, pelo amor de Deus, me dá um cigarro!

Por pura soberba e indignação, ela responde, sorrindo, que parou de fumar.

Vou sair daqui e comprar logo dois maços, tá decidido.       

As primeiras gotas que prenunciam um temporal já começaram a cair.

O clima está um caos como está todo o resto, com previsão de chuva até o fim do mês.

Por Gabriella Casa Nova

interiorana metida a escritora; enroladora de palavras, pesquisadora curiosa dos assuntos da existência, acumuladora de funções e memórias.

4 respostas em “Há coisas que precisam irremediavelmente ser ditas”

Gabi, você sabe brincar com as palavras, assim como um malabarista brinca com seus objetos, no ar.
faz parecer fácil, suave, fluido, mas ao mesmo tempo demonstra força, certeza e dúvidas, ao mesmo tempo.
você é foda! esse é seu dom, brincar com as palavras, de maneira muito séria.
muito orgulho!

Incrível Gabi! Amo a forma como você conecta e usa as palavras, faz a gente visualizar e sentir enquanto lê. Me arrepiei. Você é fodaa

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