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crônica

— Foi a minha terapeuta que mandou!

Foi o que eu disse aos meus pais. E foi mesmo a minha terapeuta quem havia mandado. Estava eu dois dias antes na poltrona — podia ter escolhido o divã do consultório, mas achei clichê demais para mim — quando a minha terapeuta disparou:

— Você tem que se afastar dos seus pais, Guilherme. Ignorá-los mesmo, se me entende.

Eu entendia. E bem.

— Seus pais não podem decidir por você.

Estava no ano de vestibular e estava quase decidido a prestar jornalismo na USP. A contragosto de papai e mamãe, eu não queria prestar Direito no tradicionalíssimo e chiquérrimo Largo São Francisco.

— Nem podem te pressionar e te punir pelas suas escolhas, Guilherme.

Quando lhes comuniquei sobre a minha decisão, meu pai me disse que jornalistas ganhavam pouco e que sequer precisavam de diploma para “opinarem por aí nos jornais”. Minha mãe disse que eu era tímido e que não tinha o “perfil cara de pau” dos jornalistas, que faziam de tudo para irem atrás de suas fontes e das informações.

— Sabe, Guilherme, você está sendo tolhido pelos seus pais. E isso está te fazendo muito mal. Você está visivelmente ansioso.

Eu dizia aos meus pais que gostava de escrever e que era comunicativo. Lembrava-os também que o William Bonner evidentemente não iria ocupar a bancada do Jornal Nacional para sempre.

— Por isso, sugiro que você se desligue dos seus pais. Enquanto toma as suas decisões. Me entende?

Sim, eu entendia. Mas “me desligar” dos meus pais não seria uma tarefa simples. Afinal eu morava com eles e dependia financeiramente deles. E gostava deles, claro. Coisa rara nas famílias de hoje em dia, não é?

— Não será algo fácil, Guilherme. Mas será essencial para o seu tratamento. É um processo.

Quando contei aos meus pais a sugestão da minha terapeuta, eles ficaram furiosos. Fu-ri-o-sos. “Quem ela pensa que é?”, disse meu pai. “Criticar é fácil. Mas aposto que ela faz igual ou pior com os filhos dela!”, reagiu mamãe.

No dia da inscrição para o vestibular, tranquei-me no meu quarto. E pensei, pensei e pensei.

— Você tem que se impor pacificamente. E não pode deixar que os seus pais planejem o seu futuro no seu lugar. Se você se enxerga sendo um jornalista daqui a alguns anos, deixe que a sua intuição te guie.

Quando finalmente enviei o formulário de inscrição com um clique do mouse, imprimi o boleto e o entreguei ao meu pai. Eu precisava de um “pai-trocínio” para bancar a FUVEST, afinal.

— E aí? Jornalismo ou Direito? — ele me inquiriu prendendo a respiração. Minha mãe me observava roendo as unhas delicadamente feitas um dia antes.

— Arquitetura! — eu lhe respondi com orgulho.

Ao que fui encarado com um silêncio que só um pai e uma mãe em choque poderiam reproduzir.

— É… Por quê, meu filho?

— Ah, pai. Minha intuição me diz que é a melhor escolha. Acho que vou gostar do curso e da profissão.

Mais um silêncio constrangedor.

— Bem, pelo menos ele não escolheu o que a terapeuta tinha mandado ele escolher! — minha mãe enfim disse, em tom triunfal — E quem não gostaria de ter um arquiteto na família?

Que conste que não me afastei dos meus pais. E que, até hoje, no exercício da minha profissão de arquiteto, sou grato à minha intuição. Me entende?

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