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Foda-se Pavlov

O alarme nem teve tempo para tocar quando o gato já me acorda. Ele tem seu sistema próprio, bem elaborado durante os anos, extremamente eficaz. Começa com miados ao pé da cama.

Sempre suspeitei que tem um hormônio responsável por nos incomodarmos com o choro de uma criança. Quanto menor a criança, maior o desespero que sentimos quando chora. E fazemos de tudo para que se tranquilize e pare de chorar. Isso é: damos carinho e damos comida. O choro cessa e agora, trabalho feito, o hormônio dissemina uma sensação de paz e tranquilidade pelo nosso sistema nervoso. Garante-se assim não menos do que a sobrevivência da espécie humana. A natureza é sábia. Tão sábia inclusive, que não me confiou uma criança, e sim, um gato. O mesmo gato que neste instante está miando ao pé da cama. Ele deve saber da existência daquele hormônio que faz com que um crescente incômodo se espalhe por meu sistema nervoso e me faz acordar. Mas eu lembro bem das aulas de Psicologia e sei que, se eu levantar agora para encher a tigela dele, Pavlov e seu cachorro vão me castigar pelo resto da minha vida (ou, no mínimo, pelo resto da vida do gato). Por isso mantenho os olhos fechados com determinação e tento ignorar os miados, cada vez mais longos e dramáticos. Ele sabe o que faz – sua performance não carece de credibilidade. Mas eu careço de sono. Então me viro, enfio a cabeça embaixo do travesseiro e tento dormir de novo.

Esse é o momento quando o gato passa à segunda fase. Sinto logo o colchão se afundar com o impacto do seu pulo e segundos depois, o focinho molhado e seus bigodes fazendo cocegas na minha nuca. Mudou de estratégia: Agora está ronronando, fazendo-se de simpático. O pior é que funciona:

– Salém – digo com voz meiga, abafada pelo travesseiro. – É muito cedo, Salém.

– Miau.

Ele já sabe que estou acordada; erro meu, não devia ter falado. Mas agora é tarde.

– Miau! – Pertinho do meu ouvido.

O hormônio desgraçado já começa a trabalhar de novo. Carinho ou comida? Vou tentá-lo com carinho.

– Vem, Salém.

Levanto um pouco o braço, ele pula por cima de mim e esfrega a cabecinha na palma da minha mão. Acaricio o pequeno corpo veludo e hoje tenho sorte: ele se deixa enrolar pelo carinho. Deita ao meu lado, o lombo quentinho encostado na minha barriga, e me concede mais 10 minutos de soneca.

A terceira fase é a pior. Inclui garras e dentes.

– Salém! – grito desta vez, sacudindo violentamente a perna e catapultando ele para fora da cama. Fricciono meu pé dolorido e informo ao gato que esta noite dormirá na sala. Mas eu sei que não adianta. Com um pulinho ele simplesmente se penduraria na maçaneta até a porta abrir. Acha que gato é besta? É nada. Aliás, ele já está na sala, preparando seu último trunfo. Ganhou. E ele sabe que eu sei. No fim das contas não sou muito diferente do cachorro de Pavlov. Já ouço suas garras arranhando o sofá novo.

– Tô indo! – aviso e o barulho cessa num instante.

Quando chego na cozinha, ele está sentado ao lado da tigela, olhando-me inocentemente. Boa parte da ração que coloquei no pratinho antes de dormir continua aí, agora com um aspecto menos apetitoso. Além de sádico e manipulador, ainda é bonequeiro! Pavlov provavelmente faria o certo: daria uma lição para ele. Insistiria que coma os restos de ontem e só então providenciaria comida fresca. Mas então olho para meu pé com o novo desenho de arranhões vermelhos e minúsculas gotas de sangue, olho para o sofá já-não-tão-novo com os fios soltos e decido que prefiro ter paz do que ter razão. Abro a gaveta e pego um sachê.

– Salmão tá bom?

– Miau.

1 resposta em “Foda-se Pavlov”

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