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crônica

Eu pensei que livros fossem vacina

Hoje eu soube que você morreu.

Eram 9 horas quando o primeiro amigo em comum me procurou perguntando: 

Você ainda fala com o ele? 

Não. 

Nossa convivência se encerrou há 20 anos. Um relacionamento amoroso, raivoso, intenso, jovem, vivo. Brutal e honesto.

Há dez anos, mais? ou menos?, trocamos nossas últimas palavras. Amenas e amigáveis. 

Vejo como natural os afastamentos. 

As pessoas mudam. 

Os caminhos se afastam. 

As histórias seguem. 

O carinho se dissolve. 

O aprendizado fica. 

É natural. 

Mas ontem você morreu. E hoje eu soube de você de novo. 

Hoje, de alguma forma, trocamos nossas últimas palavras.

Ele faleceu ontem à noite. De Covid. Meio fulminante. Sentiu falta de ar em casa, ligou para o Samu, mas não deu tempo sequer de chegar ao hospital.

Horas depois, outro.

Horas depois, outra.

Horas depois…

Maior que a surpresa de ser lembrada, ficou a surpresa de saber por onde você andava.

Você se recusou a ir ao hospital e decidiu resolver a questão em casa com o tal “tratamento precoce”. Você acreditava piamente nele. Aliás, parece que você acreditava piamente em muita coisa sem comprovação científica, sem método racional de análise, sem raciocínio lógico. 

E isso sim, muito mais que a morte, foi uma enorme surpresa para mim. Porque, veja, a gente compartilhou quatro anos de tanta vida. 

Saber que você estava morto antes de morrer é muito estranho.

Você me dava cadernos e canetinhas coloridas porque sabia que eu podia ser plenamente feliz só de passar o dia colorindo palavras. 

E me dava borrachas escritas “você é foda”, porque conhecia toda esta insegurança que anda comigo até hoje, me fazendo escrever e apagar, reescrever e apagar, todos os meus sonhos, mil vezes ao dia.

Você me deu meu primeiro Rilke. Era o “Cartas a um jovem poeta”, que, como você, eu não sei mais por onde anda. Mas, ele, eu sei que não morreu. 

Você me deixava roubar livros da sua invejável (e invejada por mim) biblioteca, que eu só devolvia porque vinham com o carimbo “Roubado do Carlinhos” – o que tornava muito constrangedor não fazê-lo. Você parecia esperto nos detalhes.

Você me fez acreditar que eu podia, recém formada, conseguir estágio nas maiores agências de publicidade de São Paulo – e eu podia!, e eu não sabia!, e eu fui!, e eu cresci tanto!

Você me deu coragem e suporte para viver todas as curiosidades e fantasias de uma menina-mulher de 20 anos. Me deu muita dor de cabeça e trauma por isso também, mas, na matemática da vida, eu entendo que o saldo foi positivo para mim.

Você me fez escrever numa ficha de hotel “profissão: escritora”, e isso nunca mais se repetiu, e eu choro até hoje toda vez que lembro disso. E eu estou chorando agora.

Então eu entendo a morte, mas não entendo todo o resto que me chegou sobre você.

Eu achei que livros fossem imunizantes contra essas ideias prontas, fáceis e falsas que as redes sociais de hoje em dia tentam empurrar aos incautos, aos incultos.

Você era de Comunicação. Um craque do Marketing. E eu achei que isso era a melhor ferramenta para nos proteger dessas artimanhas torpes que, de alguma forma, a gente mesmo criou e deveria saber usar – não ser usado por elas. 

Alguém da Publicidade não entender sobre manipulação de mensagem, controle de massa, possíveis e prováveis efeitos colaterais das tecnologias disruptivas (como foi com a prensa, o rádio, a tv, e não seria diferente com a internet)… não me desce.

Você não estava comigo quando comprei aquele livro do Goebbels num sebo da Augusta? Eu acho que estava. Se não me engano você tentou brigar com o dono do sebo, um senhorzinho, que disse algum gracejo do tipo “não precisava nem ler, mas ama sebos…”. Ele não quis apresentar essa testosterona tão valorizada na verborragia gonorréica de hoje. E eu fiquei achando que a maturidade também trazia uma certa paz de espírito. Aliviou. Mas talvez não seja o caso para todos.

E assim eu lembro de um presente não tão legal que ganhei de você, aquele que nos afastou. Você foi o único relacionamento abusivo que vivi. Tive alguns outros tóxicos, mas abusivo só o nosso. E, sem demagogia ou papo de namaste, sou grata que você tenha aparecido tão cedo e tão evidente na minha vida. 

Você me ensinou muito sobre o tipo de relacionamento amoroso que eu queria um dia encontrar. Mas, mais importante, talvez fundamental, você me ensinou sobre o que eu jamais voltaria a aceitar. 

E assim foi. E assim fui.

Você não morreu de covid-19. 

Você morreu de 17, ainda em 18. 

Você morreu de ódio.

Eu pensei que conhecimento era vacina. Contra a intolerância, contra a intransigência, contra a mediocridade. Mas eu estava errada.

Eu pensei que livros eram o único tratamento precoce possível. Contra essa ideia de mundo sem contexto, só textos recheados de agressividade. Sem argumento, só grito. Mas eu estava errada.

Contra o ódio, me parece agora, a única vacina é mesmo o amor. Daquele tipo que você nunca recebeu. E, à sua maneira, eu sei, tanto tentou me dar.

17 respostas em “Eu pensei que livros fossem vacina”

Nosssssa, muié, arrasou na estreia! Adorei o “você não morreu de covid-19. Morreu de 17, ainda em 18.” E quando você escreveu “Estou chorando agora”, eu também estava. Você escreve muito bem – continue!

Pat que texto foda. Você escreve muito bem! Admiro você demais. Senti cada linha desse texto. Parabéns por isso e por ser a mulher que você é. Um abraço bem apertado.

Puxa, Patrícia. Esse texto me chegou agora com um comentário abaixo do link: “texto foda da Patrícia Baldez, lembra dela?”. Se não me lembrasse e ainda não tivesse o privilégio de conversar com vc às vezes, lembraria com toda a força agora, certamente. Que texto incrível, bem vc mesmo. Chorei aqui quando tive que chorar lendo cada frase. Pela nossa desgraça, mas pela potência da sua escrita também. Parabéns pelo texto. Vamos em frente. Beijos. 🙂

Que texto!
Fantástico, forte, real.
De arrepiar.
Parabéns. Siga em frente. Você é muito talentosa. Esqueça a borracha. Use e abuse a caneta, o lápis e o papel.

Quanto aprendizado, Pat! Se até ele (um cara inteligente pra cara4#o, muitas vezes chato e irreverente pra cara4#o também) se deixou levar pelas falácias da internet e pelo ódio propagado e ensinado diariamente, percebo que o estrago é muito maior do que podemos imaginar. Receio que não tenha conserto, pelo menos na nossa geração e, talvez, nas próximas!
“Profissão: escritora.” Quanta sensibilidade e sabedoria. Quanto amor. Sim, você é uma escritora, está carimbando não sua alma. Não deixe este carimbo se perder, assim como ele deixou. Por favor!

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