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crônica

Eu não queria ter 15 em 2020

Eu não queria ter quinze anos em 2020. Não sei se aguentaria, se o afastamento de uma vida social presencial seria suportável. Me pego imaginando se tudo isso tivesse acontecido nos anos 90, quando o virtual não existia, quando a presença física era obrigatória para manter vínculos, como amizade ou paqueras.

Minha turma tinha pontos de encontro e na saída da escola a gente geralmente marcava em algum. Muitas de nós, inclusive eu, não tinha nem telefone fixo naquela época. Nós gostávamos de passar a tarde juntas em dois lugares que ficaram marcados para mim: a loja de artigos gauchescos da mãe de uma amiga ou o Country clube. Os clubes ainda desempenhavam um papel muito importante para os jovens, que se aglomeravam nas quadras de esporte, nos bancos debaixo das árvores pra fugir do calor ou na piscina, quando era temporada.

Como poderíamos todas enfiar as mãos na bacia cheia de pipoca ao mesmo tempo em 2020? Ou ficar de mãos dadas, meio escondidas para os pais não descobrirem, com os paqueras em plena pandemia? Este ano deve ter sido cruel para quem tem quinze anos. 

Algumas trocas talvez sejam compensadas pelas mensagens virtuais, mas será que elas abarcam todas as complexidades da interação? Aqueles sinais não ditos, demonstrados somente pelo corpo. Lembro-me de uma tarde em que uma das amigas chegou comentando a capa da revista Capricho do mês de junho. A foto mostrava um modelo de costas, vestindo calças jeans e segurando um pequeno buquê de flores, uma alusão à surpresa de dia dos namorados. Estavam todas eufóricas, dizendo que aquele cara era muito gostoso. Eu repetia a palavra “gostoso”, totalmente sem sentido pra mim, sorrindo e concordando. Era uma palavra vazia, mas como que eu ia parar toda aquela euforia para perguntar o que isso significava? Eu era nova na cidade, me sentia muito mais ingênua que todas elas, mas queria parecer tão entrosada e tão entendida, não dava para manchar aquela imagem que eu estava tentando sustentar. Mas, aposto que alguém deve ter se dado conta do meu fingimento. Lá, na interação, algo no meu rosto, no meu sorriso sem convicção, nos meus olhos que percorriam a imagem tentando detectar o sentido de “gostoso”, deve ter me denunciado. Ou não. Talvez nessa interação eu tenha aprendido a me defender e a disfarçar um desconforto, aproveitando ao máximo esse laboratório maravilhoso que é a amizade. 

E aquelas nojeiras que a gente só faz quando tem quinze anos? Como foi em 2020? Oferecer uma colherada do sorvete, um pedaço do bolo, uma lambida no picolé. Aos quinze a gente quer compartilhar tudo. Às vezes, lambíamos o pirulito e oferecíamos, convictas de que ninguém iria querer, mas sempre tinha um louco que roubava o doce e saía chupando, como se nada tivesse acontecido. E aquele pedaço do chiclete mascado?

Um dos pontos altos da nossa vida aos quinze anos era o baile de debutantes. Eu não fui debutante, mas a festa era algo esperado com ansiedade, onde todas as amigas e inimigas estariam. Era a festa onde até quem nunca saía de casa, porque os pais não deixavam, estaria. Era a oportunidade única para ver os meninos vestidos de smoking, aqueles guris que andavam o tempo todo de bermuda e camiseta, mesmo na escola ou nas festinhas. As meninas debutantes mandavam fazer uns vestidos armados, todos brancos, claro, a pureza da virgem sendo “apresentada” pela primeira vez para a sociedade. Assim como diversas tradições antigas, essa também já havia perdido esse sentido inicial, mas ainda era difícil deixar o evento de lado e ele era um sucesso. 

Eu não sei se hoje ainda existe baile de debutantes, mas eu sei que as meninas ainda fazem festas de quinze anos. Que expectativa gerava uma festa de quinze anos, os preparativos, quem você vai convidar, que roupa você vai usar, será que vai ter furão na festa? (Furão é penetra, será que ainda usam esse termo?) Sei de pessoas que economizam anos para oferecer uma grande festa para sua filha aos quinze anos. E se ela fez quinze em 2020? 

E, claro, estou falando de uma parcela da população. Moro em um bairro afastado, onde os jovens continuam se aglomerando, se encontrando no campinho em frente ao condomínio para jogar futebol nesses dias em que as escolas estão fechadas. Há também aqueles que continuam suas vidas sem pandemia porque precisam trabalhar e ajudar a família.

Eu sei que a pandemia é muito séria, que todo o distanciamento é necessário e vital e que uma simples festa ou aglomeração com amigos é muito pequeno em relação ao problema. Mas eu não consigo deixar de pensar que eu teria sofrido muito se eu tivesse quinze anos em 2020. Que, por mais que eu lembre de algumas coisas da minha adolescência com sofrimento e que eu ache que ela não foi assim tão boa, eu tenho a convicção de que para muitos jovens hoje deve estar sendo bem pior.

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