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crônica

Espelho de rosto

Edgar passava o resto da tarde sentado à uma mesa de plástico, dessas patrocinadas por alguma marca de cerveja, num dos botecos de algum beco das ruas da Favela da Maré. No céu as nuvens cruzavam vagarosamente salpicando o azul de pontos brancos. Corria uma brisa fresca, quase gelada, pelas ruas cercadas de casas por acabar, de alvenaria expostas e crianças correndo e brincando despreocupadas. A cada vizinho que passava, Edgar apresentava os cumprimentos e falava algo. A favela seguia mais um dia normal, mais um dia como outro qualquer. Edgar bebia sua cerveja depois de uma manhã inteira correndo atrás do pouco que conseguia ganhar e, pelo corpo cansado de muito peso, decidira parar mais cedo para um descanso merecido. Edgar ainda não havia chegado aos quarenta, mas já sofria do peso da idade.  

Desde muito novo Edgar já havia conhecido as formas mais brutais de violência. Tinha nascido na favela, se criado por lá, estudou nas escolas públicas da comuna, viu a morte – quase todos os dias – deitar-se no chão batido ou no asfaltado da favela. Tinha sido um péssimo aluno, típico aluno que não se adaptara ao sistema carnívoro da educação – como a maioria dos jovens que frequentam escolas. Conhecera o pai por pouco tempo – na verdade nem tinha uma grande recordação dele. O pai alcóolatra, chegava todos os dias bêbado, não teve carinho, pois ao chegar o velho caia no sofá, quando não brigava e agredia sua mãe e só acordava no dia seguinte para trabalhar e se embriagar novamente. Morreu atropelado ao atravessar a avenida Brasil num dia da mais completa embriaguez. Sua mãe só era a vista a noite em casa e sempre cansada, corria a cidade para trabalhar nas casas das madames e, na sua própria casa. Só tinha tempo de arrumar as coisas para o dia seguinte. Apenas nos finais de semana conseguia sentir a presença de fato da velha quando saiam pelas ruas da cidade para recolher as latas de alumínio, sucatas  e vender para conseguir o extra. Depois de caminhar bastante, trabalhar bastante, ela deixava-se cair no sofá e observar o moleque dormir no seu colo. Acabava por dormir também no sofá. Edgar se refugiava na literatura, onde se escondia da violência diária: tiros, granadas e a polícia invadindo as casas arbitrariamente. Em dias muito pesados nem ia à escola. Até que gostava de lá, a escola não era o seu melhor lugar, mas lhe deixava um alívio do seu dia a dia. Mesmo com os percalços, concluiu o ensino médio. Pensou em entrar na universidade, mas o trabalho para ajudar em casa não deu moleza. Ainda alimentava o sonho e pensava em chegar na educação superior. No entanto para qualquer guri de áreas periféricas, nada é fácil. Fez um curso técnico e conseguiu um emprego no centro da cidade. Casou, teve filhos e saiu da favela; foi morar em Ramos. Mas num dia separou-se e ficou sozinho na casa de Ramos. Dias depois sua mãe caíra muito doente e morrera logo em seguida. Por ironia do destino, também perdera o emprego e teve que voltar para a sua velha casa na favela.  Sozinho e de volta a comuna, retornou ao trabalho na coleta de sucatas e sustentar as crianças que viviam com a mãe – as via quase sempre, porém não as queria muito tempo na favela; não desejava a infância que ele teve aos seus filhos. Trabalhava quase todos os dias e às vezes, tirava o dia para descansar. Bebia e lia para fugir da realidade que era dura e pesada. No entanto não desistia de viver, de seguir em frente e acreditar em algo, mesmo que esse algo novo nunca chegasse e nem chegaria. Pensou em usar a tática de Antoine, no livro de Martin Page, porém sabia que mesmo se tornando um estúpido não chegaria a lugar algum. Quanto mais lia, mais angústia sentia. Porém não gostaria de tornar-se um estúpido. Bebia sua cerveja e pensava no quanto o mundo era uma merda, no quanto as pessoas tinham o prazer inesgotável de pisar no outro. Era a vida e ela é dura. A violência na cidade do Rio de Janeiro já se tornou um cartão postal e, na sua comuna, a violência parecia parte integrada do meio social. As mortes se tornaram tão naturais que pareciam o almoço e o jantar diário. 

Um helicóptero começou a sobrevoar a favela. Tudo normal se ele apenas auxiliasse na ação da polícia – o que sempre foi feito – mas agora ele cuspia balas e mais balas de fuzil das suas entranhas. Era uma nova sequência de Apocalypse Now, onde o Tenente-Coronel Bill Kilgore, interpretado por Robert Duvall, atira em vietcongues do interior de seu helicóptero ao som de Cavalgada das Valquírias. O Vietnã é aqui, porém sem Richard Wagner. As pessoas que passavam optavam por se protegerem da chuva de chumbo que poderia vir do céu a qualquer movimento mais brusco. Os tiros, normalmente, eram disparados do chão e contra esses que já estavam acostumados a se protegerem. Mas vindo do alto, a qualquer momento, era a reação da nova política de estado. Edgar resolveu voltar para casa e se proteger do genocídio propiciado pelo Estado instituído. Tentou acelerar até sua casa que ficava ali próximo, mas conseguiu dar poucos passos e sentiu suas costas queimarem e as pernas fraquejarem. Os joelhos dobraram e sentiu seu rosto se chocar contra o solo e depois caía o pano preto. As pessoas desesperadas, gritavam em uníssono, olhando o corpo de Edgar ainda respirando. Os homens fardados corriam entre as vielas e se protegiam atrás das paredes de alvenaria. O sangue de Edgar corria lentamente e pintava o asfalto e o helicóptero continuava o seu sobrevoo no local preparando novos disparos contra o solo. Edgar jazia com sangue nas costas, rosto no chão e silenciado como qualquer animal caçado injustamente.

Isso tudo poderia apenas ser um conto, uma história inventada sem pretensões mais que literárias. Mas isso passa à uma crônica, dia a dia de uma cidade imunda e dominada pelo desejo incontrolável do holocausto da miséria, onde o poder estatal exerce sua força da forma mais facínora e que pode ser comparada aos dias de conquista da América indígena. Da América receptora de navios abarrotados de carne negra e barata e que singravam um oceano com nome de cidade perdida na antiga Hélade. 

Edgar virou mais uma estatística, foi sepultado sem pompas de autoridade, sem a tão repulsiva bandeira pátria e foi notícia por uns dias nos jornais. Nada mais comum num lugar onde a morte segue natural. Os dias passam, as gaivotas buscam seus peixes nas águas da baía, os cachorros caminham pelas ruas da favela, os gatos ficam as espreitas nos muros… a vida segue o seu vai e vem normal na comuna que vive sempre na expectativa de novos Edgares sangrando por suas vielas.

4 respostas em “Espelho de rosto”

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