Categorias
crônica

Erro Crasso

Do meu tempo de estudante, a maior parte das lembranças tem a ver com o pátio, a quadra ou o caminho para a escola. De dentro da sala de aula, restaram pouquíssimas memórias. Repreensões pelo excesso de conversa, bilhetinhos indo e vindo o tempo todo, copiar do quadro (muito!) e a incapacidade de colar por medo de ser pega. Porém, algumas situações desastrosas foram marcantes. 

O primeiro constrangimento de que me lembro foi na quinta série. Consigo visualizar a professora pedindo para eu ler a resposta de alguma questão em voz alta para a turma, enquanto os rostos dos meus colegas estão virados para mim, carregados de julgamento, pensando “como que ela não sabe isso!”. Eu não conseguia achar a tal da resposta de jeito nenhum. Nessa minha imagem mental, ela está sentada, atrás de sua grande mesa, e só o que ela faz é insistir para que eu olhe “direito” para o livro e ache a resposta. Se não me engano, era uma interpretação de texto. Ela falava, da lonjura de sua sabedoria, com um tom de voz embebido de impaciência, como se fosse a resposta mais óbvia do mundo, o que só alimentava meu desespero por não conseguir enxergar algo tão claro. Se alguém pedisse, eu não seria capaz de descrevê-la hoje em dia. Ela é uma imagem borrada na minha cabeça, assim como a resposta óbvia que até hoje não descobri.

Outro fato bem marcante também está relacionado à vergonha. Aconteceu na sétima ou oitava série e foi resultado de uma aula de português. A professora havia pedido para a turma escrever uma redação abordando o problema das enchentes. Como sou de São Sebastião do Caí, nada fora do normal. O texto deveria discorrer sobre o que poderíamos fazer toda vez que a cidade enfrentasse o problema. Desde lá, eu já gostava de expressar minha opinião e vi que no papel eu gostava ainda mais. Eu articulei minhas ideias, na minha melhor forma panfletária e idealista, e talvez fosse a primeira vez que me sentia orgulhosa de algo que havia escrito. No calor dos argumentos, acabei meu texto dizendo que “deveríamos arremangar as calças e ajudar os outros nesses tempos de grande dificuldade”.

Lembro até hoje da caneta vermelha circulando a palavra “arremangar” e a expressão “erro crasso” escrita em letras garrafais odiosas no canto da página. Eu vi ali o “caps lock furioso” sendo inventado. Foi um tiro, uma flechada, uma pedrada ou qualquer outra coisa horrível que se possa imaginar na minha autoestima, que já não era lá grandes coisas. Primeiro, porque eu precisava entender o que diabos “crasso” significava e, pela cor da caneta e desenho da letra, eu não era nem louca de ir lá perguntar para a professora (além de estar escrito bem do ladinho da palavra “erro”). Segundo, porque não havia nenhuma consideração sobre o conteúdo do texto. Era como se todas as minhas elaborações e todo o meu esforço fossem um castelo de areia com uma placa luminosa escrita “arremangar” no topo e aquele crasso fosse uma onda. E na minha mente, essa onda se transformou em um tsunami, arrasando minha confiança.

Eu senti muita vergonha depois que eu descobri o que “erro crasso” significava. Como é que eu, Caroline, que aprendeu de berço a importância do conhecimento, cometia um erro daqueles? Essa vergonha me acompanhou por anos. Pode parecer pequeno para pessoas imunes a opiniões alheias, mas eu demorei muito tempo para construir a autoconfiança que tenho hoje. Tanto que, durante minha caminhada acadêmica, no curso de Letras, uma professora maravilhosa devolveu uma produção textual minha e disse que eu tinha escrito os melhores diálogos da turma. Sabe o que eu fiz com isso? Disse para mim mesma que ela estava sendo gentil. Anos depois, outro professor pediu que escrevêssemos um texto argumentativo e, na devolução, ele anotou que eu deveria publicar aquela carta que eu havia escrito, que era pura argumentação. E o que eu fiz? Nada. Eu fingi que não havia entendido e hoje me arrependo de ter jogado a carta fora. 

Não estou dizendo que tudo isso aconteceu só por causa daquele evento, mas é preciso sensibilidade para lidar com seres humanos. Fico imaginando se, ao invés daquele recado, ela tivesse agido de outra forma. Se ela tivesse, pelo menos, dado sua opinião sobre o conteúdo do texto. Ela poderia ter sublinhado a palavra errada (até podia ser de vermelho) e escrito: busque a definição do dicionário e veja se é a melhor escolha. Quem sabe ela me chamasse para conversar, dizendo que eu havia cometido um pequeno deslize. Pronto. Uma aluna aprendendo com seu erro. Uma aluna mantendo sua dignidade ao expressar sua opinião e, quem sabe, até investindo sua energia na escrita. Uma cronista, já pensou? Por sorte, existe o tempo, que cura nossas mágoas e não deixa morrer nossos desejos. 

2 respostas em “Erro Crasso”

que bom que vc persistiu, Caroline 🙂 teu texto me fez pensar nos professores que em algum momento me estimularam a continuar escrevendo, sem dúvida foram mt importantes na minha trajetória.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *