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Em busca do velho normal

E lá se foi um ano sem sequer um resfriado vir nos visitar. Nada mesmo foi convidado para entrar em nossa casa durante 2020. E, até onde chegamos, também em 2021.

Não é comum para crianças de seis anos passarem um ano inteiro sem ver atchim e espirro – que no meu tempo eram palhaços e hoje não tem a menor graça (ou são daqueles que dão medo e fazem chorar; sempre teve desses). Talvez não seja comum a nenhuma idade passar um ano inteiro sem experimentar uma noite mal dormida em função de festa no salão – e não estou falando do vizinho sem noção, mas do nariz entupidão mesmo. Não sou médica, e posso estar falando uma grande bobagem. Mas, daqui dos meus longos e saudáveis 40 anos, falo de experiência: resfriei umas três ou quatro vezes a cada um deles, pelo menos desde que me entendo por gente. A tradição só terminou agora.

Em um ano normal, a convivência com outras crianças na escola, as idas repletas de gritos e gargalhadas aos parques de diversão, os mergulhos na piscina fria, os sorvetes à beira mar, os banhos atrasados pela quebra da rotina nos finais de semana seguidos de cabelos ainda úmidos no travesseiro, tudo isso, de acordo com a minha avó, eram motivos suficientes para receber visitas indesejadas como coriza, tosse e até uma leve febre, que vem quando o corpo se prepara para contra atacar os invisíveis invasores. Mas, se teve uma coisa que este último ano não foi, certamente é o que classificamos regularmente de normal.

As aulas presenciais voltaram há pouco mais de um mês. Foi acompanhada de algum relaxamento, uma grande vontade de emular normalidade. Ainda que as crianças compreendam o que está acontecendo, a alegria de voltar a conviver embriaga. É como o adulto que chega no bar de máscara e álcool gel a postos, e no meio da noite já está dividindo copos e cigarros – já viu desses? Não era nem para estar ali, e a gente sabe muito bem o porquê. “Todos os protocolos de segurança” é ficar em casa. Fora isso, há risco.

Na sequência, o velho normal bateu na porta da frente. O primeiro resfriado do ano chegou semana passada, e passou de um irmão a outro, e do outro para a mãe, e da mãe para o pai. E chegou com ele uma nova certeza: o velho normal, na verdade, morreu. Um simples resfriado pode existir na prática, mas, na ideia, não existe mais.

Ele não chegou acompanhado de febre, mas de pânico. Como os sintomas no corpo fluem com bastante naturalidade, o medo é o outro.

Naquele dia, eu entreguei o cartão na mão da mulher do caixa? E quando abri a porta do banco para o senhor de azul, cheguei perto demais? Será que isso ficou encubado mais tempo do que indica a ciência e eu errei em ter ido à manifestação?

SERÁ QUE EU MATEI ALGUÉM? QUANTOS SERÁ QUE EU MATEI ESTA SEMANA?

AQUELE ESPIRRO DA COLEGA DA SALA AO LADO, ERA RINITE? OU UMA BALA?

AQUELA CRIANÇA QUE PARECIA ESTAR CHORANDO EMBAIXO DA MÁSCARA NA PORTA DA ESCOLA, EU DEVIA TER AVISADO À COORDENADORA QUE ACHAVA MELHOR ELA NÃO FICAR NA QUADRA COM MEUS FILHOS?

Há uma epidemia dentro da pandemia. O outro vírus chama-se medo. Sintomas leves são reconhecidos como receio. Os graves, pavor.

Quando voltaremos a abraçar em paz e com paz no coração? Quando voltaremos a confiar plenamente nos outros e em nós? Quando parearemos de olhar aos transeuntes como possíveis bombas biológicas?

Os ditos entendidos falam sobre a depressão por estarmos isolados. Psicólogos já observam a ansiedade e a angústia por voltarmos a estar próximos. Somos seres sociais, gregários, em grupos conquistamos mais. E quando começamos a desconfiar e a ter medo de aproximações, o que nos espera?

Lá fora, o novo normal vem chegando, sendo inoculado em nós.

Quando as coisas vão ficar normais aqui dentro? E como uma nova psiquê será introjetada em nós?

2 respostas em “Em busca do velho normal”

Acredito que essa confusão de sentimentos e de vontades que você descreveu muito bem ainda vai nos acompanhar por muito tempo, infelizmente. Sei que é absurdo e insano ver que nós, brasileiros, estamos quase normalizando duas mil mortes por dia. Mas talvez o não pensar tanto sobre isso, não querer ver os números nos noticiários diariamente, não falar “apenas” sobre o Covid seja o jeitinho que encontramos de sobreviver a este pesadelo. Dói muito pensar se já matamos alguém ou se continuamos a matar. É quase vergonhoso admitir a desconfiança e o pavor por toda e qualquer pessoa que esteja com o nariz escorrendo.
Aqui dentro, acho que as coisas nunca, nunca mesmo, vão ficar normais.

Pois é!
Outro dia me percebi olhando a todos em volta como possibilidades de contágio, e não mais pessoas.
Os que vão são números, e não mais pessoas.
Eu e minha família como potenciais disseminadores, e quase não mais pessoas.
Já não sei mais o que é exagero ou cuidado adequado.
Às vezes acho que já não sei mais o que é certo. O errado, acho, eu sei.

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