Categorias
crônica

Eis a pergunta

A nova vizinha já chegou chegando. Bom, na verdade chegar não chegou, pelo menos não inicialmente. E enquanto ela não chegava, mandou três funcionários tirar do terreno ao nosso lado tudo que não fosse árvore. Foi assim que uma manhã acordamos e a vista pela janela da cozinha tinha se transformado: onde antes o olhar se alegrava com beija-flores, ora verdes, ora azuis, que dançavam entre as helicônias, agora se deparava com um campo marrom, vazio. Restavam somente alguns troncos que, de diferente grossura e meio perdidos no espaço, erguiam-se em direção ao céu.

— Foi vendido, foi?

Os funcionários assentiram com a cabeça. Foi assim que ficamos sabendo dela.

Vou nem fingir que não fiquei logo preocupada. Até agora vivíamos rodeadas de plantas, não importava para onde olhássemos. Nem dava para ver a próxima casa atrás de tantas folhas, e ouvir vozes, barulho ou som de música era raro — dependia da direção do vento e do silêncio das cigarras. Agora tudo isso vai mudar. Quem será essa pessoa? Será gente boa? Tranquila? Respeitosa com a natureza? E, a questão mais importante em tempos como este: Será de esquerda?

Haviam passado alguns dias, o mato já começava a crescer de novo, quando ela finalmente chega. A nova vizinha em pessoa, carregada de vasos de plantas, que agora acomoda em volta das árvores. Observo tudo desde a janela da cozinha e quando ela levanta a cabeça, aceno com a mão. Melhor começar as coisas bem. Ela acena de volta e vem pra perto.

— Prazer, eu sou Rosileine — se apresenta e passa os próximos 20 minutos contando que resolveu trazer as plantas logo porque as bichinhas estavam morrendo no apartamento na cidade, que vai projetar uma casa pequena, só para ela, o marido e a sogra, que não nos preocupemos com barulho, que são pessoas tranquilas, mas que não se importam com os latidos do nosso cachorro porque amam animais, que ela é fotógrafa e faz mandalas além de outros artesanatos, yoga e meditação, que adora acordar cedo, molhar suas plantinhas e ficar conversando com as meninas — acho que se referia às plantas, pois filhos, diz, apalpando a barriga, filhos só quando Deus mandar —, que arrumou umas mudinhas e vai replantar seis árvores por cada uma que tiver que cortar, concretamente embaúbas para atrair bichos-preguiça porque, enfim, adora a natureza e por isso decidiu comprar esse terreno. Por fim ela inspira, o fluxo verbal cessa e eu aproveito o momento para falar das licenças ambientais para cortar árvores, das várias permissões necessárias e regras a serem cumpridas para poder construir ali. Ao ver que ela não se desanima acrescento cobras, caranguejeiras e escorpiões que já vi aqui (além de outros que invento na hora e que habitam principalmente e em grande quantidade o terreno dela). Mas a futura vizinha só levanta os ombros e diz com um sorriso: “Eles estavam aqui antes da gente” e “Nós é que estamos na casa deles”. Dá todas as respostas certas, um negócio impressionante, até que finalmente me olha meio desconfiada — provavelmente por meu look de berlinense que não penteia o cabelo faz uma semana e não usa maquiagem por uma mistura de convicção com preguiça — e pergunta de onde eu sou.

— Fortaleza — minto. E ela, fingindo que ainda não percebeu meu sotaque, exclama:

— Que legal, a gente AMA Fortaleza!

Ainda não tenho certeza se é de esquerda mesmo, mas uma pernambucana que gosta de Fortaleza, conversa com plantas, adora bichinhos e faz de conta que não tenho sotaque só pode ser uma boa pessoa. Ou não?

10 respostas em “Eis a pergunta”

Sim, essa mulher deve ser gente boa. Se gosta de planta, de bicho, deve também gostar de crônicas. Principalmente se forem de uma boa colheita, como essa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *