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crônica sobre escrita

E se a gente for juntas?

Todo escritor ou escritora sabe como é: às vezes as palavras faltam. Escrever, embora seja uma vocação, também é um algo que se desenvolve a partir da prática. Por isso, a principal dica dos grandes autores para nós, escritores wannabe, é escrever todos os dias.

Olha, eu juro que tento. Praticamente todas as manhãs me sento na frente do computador ou com um caderno na mão e penso, “vamos lá. Vamos praticar a escrita hoje”. Muitas vezes o negócio flui. Pesco uma ideia, vou desenvolvendo a questão e, quando vejo, já tenho palavras e mais palavras formando frases, parágrafos, capítulos. Vai que é uma lindeza! Mas, em outras ocasiões fico empacada. Não sei bem como começar. Uma absurda “síndrome da folha em branco” me pega de jeito e me deixa meio perdida, sem saber como dar forma às palavras que carrego dentro de mim. Porque elas estão aqui o tempo todo, disso eu tenho certeza. Mas nem sempre é simples colocá-las pra fora. As danadinhas escapam, não me deixam agarrá-las.

Vocês poderiam me perguntar, mas porque é preciso colocá-las pra fora? Não é muito mais fácil deixá-las quietinhas aí dentro da tua cabeça, vivendo a vida delas numa boa, sem te complicar? Pode ser que sim, viu, pode ser que esse seja um caminho possível. As histórias que invento não são menos histórias porque vivem somente dentro de mim. Mas é que a sensação de mostrá-las a mais pessoas e ver nelas um sentimento de identificação é tão incrível que não consigo evitar – preciso encontrar a forma de libertá-las. Quero que minhas palavras ganhem asas, vejam o mundo e sejam vistas por ele. Que se transformem, que mutem, que se expandam.

Nem sempre foi assim. Antes, eu pensava que escrevia só para mim, somente porque me fazia bem, porque é a forma mais minha de me filtrar, de me sentir melhor em situações difíceis. Ou de dissecar a felicidade dos momentos alegres. Mas fui crescendo, escrevendo e mudando, e hoje entendo que também escrevo para os outros. Para fazer outra pessoa sorrir, pensar, sentir, se descobrir menos sozinha. Escrevo com a ideia de poder transmitir que aqui estou, colega, vivendo as mesmas coisas, sentindo os mesmos medos.

E se a gente for juntas?

Porque no final das contas, escrevo e compartilho o que escrevo para criar comunidade. Ser escritora, para mim, é me conectar com as pessoas e formar por meio do que escrevo uma rede de apoio. Um abraço coletivo na forma de palavras.

Por isso é tão frustrante quando me sento com o propósito de escrever e nada acontece. A tela continua em branco, o papel imaculado. Sinto que falho comigo mesma, com os outros. Me irrito e essa irritação somente me afasta mais e mais do ato de escrever. Procrastino, vejo as notificações, respondo uns emails. Volto pra tela do word que me encara, fria, impassível. Do outro lado dela está tudo aquilo que sempre sonhei. As pessoas com quem eu poderia me conectar, as ideias que trocaríamos, as palavras que me levariam até elas.

Nessas horas, respiro fundo. Faço uma pequena prece pros Santos Autores que amo e que são meus modelos a seguir. E busco inspiração nas comunidades das que já sou parte. Venho aqui na Escritor Brasileiro. Leio a última Subtextos. Fuço alguns grupos de Whatsapp ou Telegram que compartilho com outros escritores que, como eu, às vezes precisam de um empurrãozinho. A força dessa conexão com tantas pessoas que estão caminhando o mesmo trajeto que o meu é um belíssimo motor. Sem nem perceber, as ideias começam a cozinhar aqui dentro. As palavras que antes não me davam trégua decidem colaborar e, de repente, parece muito mais fácil colocá-las no papel. Já não me sinto perdida, nem frustrada. Somente focada em seguir em frente, muito bem acompanhada das minhas palavras e das palavras de toda essa gente talentosa que me acompanha.

1 resposta em “E se a gente for juntas?”

[…] Então me jogo num livro, maratono uma série, deixo o pensamento descansar em uma overdose de histórias (são sempre elas, minhas heroínas) e logo me acalmo. Uma mente serena é o que preciso para visitar o meu âmago e rever o que aconteceu. Meditar, relembrar, agradecer. Compreender que todos temos nosso yin e yang, extremos que fazem de nós quem somos. Às vezes precisamos mais de um lado, às vezes mais do outro. E, em outras ocasiões, precisamos do equilíbrio entre ambos para respirar fundo e recomeçar. […]

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