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De Aristóteles a Kelly Clarkson, todos buscam a sua verdade

Outro dia, eu senti que tinha pisado na bola. Que não tinha cumprido a minha palavra e que havia decepcionado a todos e a mim mesmo. Eu achava que nunca ia me perdoar.

Naquele dia, eu não tiquei todos os itens da minha lista de afazeres.

Pois é. O meu grande pecado foi ter trabalhado menos do que eu havia planejado. Deixei de cumprir duas das nove tarefas daquele dia. Em primeiro, eu não consegui revisar um texto que tinha escrito e que precisava terminar e, em segundo, deixei de passar aspirador no meu quarto bem no dia de faxina em casa.

Me senti culpado. Culpadíssimo. Eu achava que podia ser chamado de perdedor. Fracassado. Loser.

Mas, como ainda me restara um quê de dignidade, eu resolvi refletir sobre a minha culpa. Valia a pena me sentir tão mal?

Obviamente, ninguém fica feliz ao não concluir um texto importante ou ao deixar de limpar o seu quarto. Mas, honestamente, há problemas mais graves por aí, não?

Exato, eu respondi a mim mesmo. Nessa reflexão, eu percebi que estava sofrendo muito por muito pouco.

Mas e se os meus problemas fossem maiores e tornassem o meu sofrimento justificável? Nesse caso valeria a pena eu me amargurar?

Todos nós passamos por problemas – alguns, evidentemente, mais graves que outros – e, ainda que nos sobrem muitos traumas e várias decepções, nós sobrevivemos.

Quando cheguei a essa conclusão, me veio à cabeça um outro pensamento: What doesn’t kill you makes you stronger! Para muitos, esse é um trechinho grudento de uma música escrita pela maravilhosa Kelly Clarkson, mas – sinto informar – esse dizer, na verdade, é uma reflexão do filósofo Friedrich Nietzsche. Há mais de cem anos, ele já tinha cravado: “O que não mata, fortalece”. É isso mesmo!

Claro que nem todos veem a vida com tanto otimismo. Arthur Schopenhauer – outro filósofo do século XIX – dizia que viver implica sofrer. O sofrimento, para ele, era uma espécie de consequência da nossa existência. Eu confesso que vejo um pouco de Schopenhauer em mim!

Pois bem: a vida é um sofrimento que não vale a pena ou essa dor tem alguma utilidade, afinal? Foi aí que eu me lembrei de um terceiro pensador. Aristóteles – que era, digamos, uma das mentes mais brilhantes da Grécia antiga – dizia que a esperança é o sonho dos acordados.

Talvez aí esteja a resposta. A gente sofre e amadurece no presente sem nunca deixar de sonhar com um futuro melhor. Me parece que a dor nos motiva a desejar o melhor de nós mesmos.

E, já que somos nós que escolhemos em quais verdades e mentiras acreditar, eu escolho confiar em Aristóteles.

Claro que Nietzsche, Schopenhauer e Kelly Clarkson têm o direito de ver o mundo da maneira deles. Mas, no dia em que me culpei por ter trabalhado pouco, eu escolhi ouvir Aristóteles e sonhar com um dia em que a minha culpa e outros dos meus problemas seriam superados. Mesmo que parcialmente.

Foi assim que, em apenas um dia, eu resolvi passar de um fracassado confesso a um sonhador em construção. E, dessa maneira, consegui me perdoar.

2 respostas em “De Aristóteles a Kelly Clarkson, todos buscam a sua verdade”

Que reflexão incrível! Em tempos modernos nos vemos presos a certos pensamentos… mas, sem sombra de dúvidas precisamos nos permitir sonhar mais e conseguir nos perdoar às vezes!

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