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Estou ciente de que existem algumas centenas de publicações referentes às diferenças entre os universos feminino e masculino, mas gostaria de dar a minha contribuição nesse oceano de opiniões literárias. 

O assunto me veio à cabeça quando percebi que, involuntariamente, fazia hora para sair de casa. Sem perceber, arrumava desculpas esfarrapadas postergando em alguns minutos o meu horário habitual de passear com a minha cachorra. Então, compreendi aquilo que de fato acontecia, o que me remeteu a uma situação tragicômica. 

Há algum tempo, no condomínio em que vivo, iniciou-se um movimento incomum devido à construção de uma nova casa em um terreno. A movimentação de trabalhadores geralmente acontece antes das seis da manhã e depois das seis da tarde, quando eles chegam e saem do trabalho. 

O fato é que existe uma picape abarrotada de operários que ingressa no condomínio regularmente às 05h45min. Como sei disso? Porque é a hora em que eu estou passeando com Lola. Todas as vezes nas quais nos encontramos, cumprimento-os com um “bom-dia”, assim como faço com qualquer pessoa que cruza o meu caminho. O problema é que me sinto incomodada com os olhares que recebo em troca. 

Isso me fez pensar em quantas vezes selecionei a roupa que vestiria dependendo do trajeto a tomar. Parece ilógico, mas a verdade é que esses fatores são diretamente ligados ao universo feminino. 

Já houve situação de eu ter que aumentar o meu percurso em alguns quarteirões somente para evitar passar em frente a um determinado bar. Já comprei um “cobre bunda”, isso mesmo que você leu. Uma espécie de saia para colocar por cima da calça legging de ginástica. A vestimenta fora criada com esse propósito e, de acordo com a designer, era sucesso de vendas nas lojas de roupas esportivas.

Imagino que as mulheres que leem esse artigo estejam se identificando e lembrando de situações similares que vivenciaram. Quanto aos homens, desafio aqueles que tiveram que se preocupar com a roupa que vestiriam por conta do trajeto ou do transporte que pegariam. Essa, sem dúvida, é uma das realidades mais desagradáveis do nosso universo. 

Seguindo esse mesmo tema, me permiti refletir sobre a tênue linha que existe entre cantada e assédio. Não sou contra cantadas, muito pelo contrário, mas, sem dúvida, deve ser executada com precaução. Como autora e leitora que sou, adoro narrativas que envolvem cantadas. São passagens essenciais para desenvolver o clímax romântico entre protagonistas nas literaturas e produções cinematográficas. Afinal, quem não gosta de romance? Mas tudo depende da conexão entre as partes envolvidas. 

Não existe cantada boa ou ruim. O que realmente importa é o nível de conexão e, sem isso, as cantadas ficam fora de contexto. Imaginem a cena. 

Em um bar, duas pessoas se olham. Encostadas no balcão, elas sorriem. Ela passa a mão suavemente pelos cabelos. Ele cumprimenta-a, fazendo um gesto delicado com a garrafa de cerveja. Distantes, trocam mais sorrisos. Ele se aproxima lentamente, sem desviar seus olhos dos dela. Quando chega perto o suficiente se apresenta, de maneira cordial. Eles conversam por alguns minutos e resolvem dançar, embalados pela banda ao vivo que anima o local. 

A todo momento eles se encaram, esbarram propositalmente seus dedos, que se tocam provocando um frenesi, como pequenos choques que energizam seus corpos. Devagar, vão se aproximando até estarem a poucos palmos de distância. Ele se aproxima e sussurra em seus ouvidos: “Você me deixa louco, sabia?”. 

Agora imaginem a seguinte cena. A mesma mulher sai de casa pela manhã, caminha em direção ao ponto de ônibus. O percurso a obriga a passar em frente à construção de um novo edifício em sua rua. São sete horas da manhã, horário em que os operários estão chegando para um novo dia de trabalho. Ela vem preparada, pois sabe que receberá um “fiu-fiu”, como acontece todos os dias. Ao chegar próxima o suficiente dos trabalhadores, um deles se aproxima e fala, “Você me deixa louco, sabia?”.

A frase dita nos dois exemplos é a mesma. Então, o que faz com que na primeira narração sintamos prazer, enquanto na segunda, repulsa? A resposta, na minha opinião, é a conexão entre as partes. A tênue linha diretamente relacionada ao momento da ação e à reciprocidade entre os envolvidos. 

Então, por que passamos por tantos momentos deselegantes ao longo da vida? Será que essa linha é ultrapassada por falta de conhecimento, por erro de interpretação dos sinais ou por pura falta de caráter?   

Na dúvida, o melhor é ser precavido(a) e aguardar sinais explícitos de que ambas as partes estão sintonizadas, porque não há nada pior do que uma cantada fora de contexto.

4 respostas em “Conectados”

Conto mto bom, colocando duas frases idênticas, em contextos mto diferentes.
Numa entende-se o romantismo e na outra a pura agressão
Parabéns Luciana, não fugiste das maravilhas do que escreves em teus livros. Uma pitada de romance é sempre bem aceita

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