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Cena no restaurante

Mãe, pai, dois filhos e a avó entram em um restaurante. Sentam-se a uma mesa próxima à minha, posicionada à minha frente. Mesmo que eu me esforce, é difícil não observar. A atendente vai até a mesa e anota os pedidos. Os meninos estão sentados lado a lado. Eu desvio o olhar, mas logo começo a ouvir sons de filme infantil vindo daquela mesa. Os meninos estão com os olhos voltados na mesma direção, então percebo que há um celular posicionado à frente deles. A comida vem, pessoas entram no restaurante, outras saem, um copo é derrubado, mas eles não registram nada disso. Riem sem tirar os olhos do ponto fixo.

Eu quero comer e beber, passar um domingo tranquilo, mas meus olhos me traem. Percebo que, enquanto almoça, a mãe utiliza o celular com frequência; parece estar conversando com alguém por mensagem. Ela dá uma garfada, pega o celular, escreve, devolve o celular à mesa, corta a carne de um dos filhos, que está com um bife inteiro no garfo puxando com os dentes, pega o celular, digita, devolve à mesa, dá uma garfada. O pai, do lado oposto na mesa, corta a carne do outro filho, cujos olhos estão grudados na tela.

O restaurante não é chique, mas é preciso ter uma boa renda para pagar um rodízio de massas e filés para cinco pessoas. A bolsa dela e o tênis dele são de marcas famosas e caras.

Eu não consigo tirar os olhos da cena.

Procuro me concentrar na minha refeição, conversar com meu companheiro. Mas não consigo parar de pensar que há tantas oportunidades perdidas ali. Ensinar um filho a cortar um pedaço de carne. Mostrar às crianças que é preciso ter paciência para esperar por uma refeição. Ter uma conversa olho no olho. Se alguém perguntar para essas duas crianças, amanhã, como foi o domingo, elas talvez não saberão dizer nada além do que viram na tela. Como fica toda a experiência sensorial do alimento? O cérebro e o estômago sem sintonia. Imagino a comida sendo somente colocada para dentro, sem a percepção do gosto ou sem perceber se estão satisfeitos ou não.

Lembro da máxima que, em certos aspectos, é tão errada quanto toda esta cena: “meu filho vai ter tudo o que eu não tive, não vai passar trabalho como eu”. Dar tudo o que não se teve não deveria significar dar tudo. As dificuldades, os problemas, as aflições e as incertezas ensinam bem mais do que receber tudo sem esforço algum. Eu já me peguei pensando em comprar algo para o meu filho antes mesmo de ele ter manifestado o desejo. Diversas vezes. E o que fica quando cortamos o desejo?

Enquanto tento me concentrar no meu prato de comida, penso, também, em alguns modelos de carro que já trazem uma tela acoplada à parte traseira dos bancos dianteiros para entreter as crianças durante uma viagem. Quando eu era criança, passeava muito com meus pais e meus irmãos. Eu adorava ficar com os olhos perdidos na paisagem, analisando as mudanças do terreno conforme o carro avançava. Eu não fazia ideia, mas hoje vejo o quanto aprendi observando a vegetação, os animais, o estilo de vida da região, as pessoas, o clima. Em muitos momentos, eu sentia tédio ou ficava aborrecida com alguma discussão entre os meus irmãos. Até nesses momentos, eu estava em contato com meus sentimentos e talvez isso tenha me ajudado a lidar com eles em outros momentos da vida.

Comento com meu companheiro sobre a cena, preciso compartilhar a agonia. Por que um pai ou uma mãe acha que colocar um celular na frente da criança enquanto come é bom? Será que é uma decisão consciente? Ou é apenas preguiça? Esses pais, que estão com dinheiro no bolso porque trabalham das 6 horas da manhã às 9 horas da noite porque querem dar tudo o que não tiveram para o filho, estão certos?

Como professora, ouvi a queixa de muitos jovens sobre essa configuração. Não eram famílias ricas, mas as crianças sempre tinham celular, roupas de marca e os mais novos videogames. Ou seja, não eram famílias que passavam fome. Ainda assim, muitos desses jovens ficavam sozinhos em casa no turno contrário ao que iam para a escola. Muitos não viam os pais saírem de manhã para trabalhar. Porém, não é só uma questão de presença física porque o abandono não é físico, é emocional. Chegar tarde em casa e ter uma conversa com a criança, passar um tempo com ela, faz toda a diferença. Quando isso não acontece, é solidão emocional.

Na minha experiência, essas crianças gostam da ideia de ter todas essas coisas. Elas não têm consciência do abandono emocional em que vivem, apesar de muitos apresentarem comportamentos agressivos ou depressivos. Em geral, são crianças extremamente carentes de afeto, inseguras e confusas, e têm bastante dificuldade em lidar com limites.

Eu queria ter desviado o olhar. Agora, sinto angústia. Quero terminar logo para poder sair daqui. Sinto tristeza pelas crianças porque elas não têm como saber. É provável que os pais também não saibam, devem achar aquilo inofensivo, só querem o bem dos filhos. Talvez eles pensem que assim é mais fácil, evitar um embate com os meninos que, por certo, insistiriam naquilo com o que já se acostumaram.

Cruzo meus talheres e percebo um olhar sobre mim. Volto os olhos para a mesa e a avó me lança um sorriso triste. Devolvo o mesmo sorriso enquanto me levanto para ir embora.

8 respostas em “Cena no restaurante”

Muito bom, Caroline! Compartilho sua angústia com essas cenas. Adorei a reflexão “o que fica quando cortamos o desejo?” E o final ficou muito bom também!

Achei bom o texto e o conteúdo. Como se trata de crônica social e minha formação acadêmica é Ciências Sociais, acrescentaria o lado invisível da cena: o que estas crianças estão aprendendo, ainda que possa ser só diversão. Tenho 82 anos. Felizmente não viverei na sociedade que se está criando. Parabéns.

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