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crônica

Brasileiríssima confusão

Estávamos na fila de embarque da Rodoviária do Tietê. A mulher da minha frente transbordava perplexidade.

— I don’t understand, Robert. Fifteen and fourteen mean the same here in Brazil?

Permita-me ativar a tecla SAP. Os meus anos de curso de inglês precisam me servir para algum fim, evidentemente.

— Eu não entendo, Robert. Quinze e catorrrze são a mesma coisa aqui no Brazil? — vou optar por traduzir com alguma fidelidade a pronúncia e o léxico dos estrangeiros na minha frente. Of course.

— Eu também não entendo, Nancy — aqui, deve-se ler “Nénci”, como um bom anglo-saxão diria — Nos falaram que o nosso embarrrque seria em quinze dias. Estávamos em 20 de abril. Hoje é 5 de maio. Eu simplesmente não entendo.

— Senhorrr, eu acho que aqui houve um engano — Nancy fala em português com o motorista do ônibus que verificava os cartões de embarque — A senhora que nos vendeu esses tickets para o Rio de Janeiro em 20 de abril inforrrmou que o embarrrque seria em quinze dias. Hoje é 5 de maio, mas o nosso ônibus parrrtiu ontem!

— Senhora — o motorista retrucou enquanto via a fila de passageiros crescer — note que o cartão está dizendo que o embarque era mesmo ontem, quarta-feira, dia 4 de maio.

— Mas por que então ela nos disse que deveríamos embarrrcar em quinze dias?

— Pergunte a ela, dona.

What? O que disse?

Achei melhor intervir. Afinal, se eu não fizesse alguma coisa, não chegaria no Rio naquele dia. Feliz com a oportunidade de treinar o meu inglês, comecei a dialogar com a Nancy.

Excuse me, ma’am. Deixe-me ver a sua passagem.

Ela esticou a mão e me mostrou o bilhete da companhia de ônibus. A data de embarque que constava de fato era quarta-feira, 4 de maio. A venda fora feita duas quartas-feiras antes, no dia 20 de abril.

— Mas a senhora não olhou a data impressa aqui? Dia 4?

— Não. Me disseram que o embarrrque era em quinze dias e eu acreditei.

— Nancy, vamos voltar ao balcão de vendas. Quem sabe não conseguimos um refund? — foi a vez de Robert intervir.

— Não quero o meu dinheiro de volta. Quero embarrrcar para o Rio de Janeiro. Agora.

— Senhora, não tem nada que eu possa fazer. Agora, por favor deixe os passageiros entrarem no ônibus — o motorista franzia a testa, irritado.

— Pois ninguém me tira daqui até eu e o meu marido entrarrrmos também.

Darling, vamos voltar ao balcão…

— De jeito nenhum, Robert!

Vendo o imbróglio se avolumar, pensei comigo: o que fazer para esse casal deixar o meu ônibus partir?

Eis que surge uma ideia. Voltei a falar em inglês:

— Por que vocês não resolvem esse impasse do jeito brazuca? — que conste que desconheço um vocábulo equivalente a “brazuca” na língua inglesa. Eu falei “Brazilian way” mesmo. O famoso jeitinho brasileiro.

Excuse me? O que quer dizer? — ela me pergunta.

— Se o motorista não quer dar lugar a vocês, encontrem dois passageiros que queiram. Vocês podem falar a palavra mais convincente de todas. Começa com “D”.

Nancy esboça um sorriso. A gringa tinha pego o espírito da coisa.

— Senhores, alguém se oferece para ceder seu assento para mim e para o meu marido? — ela grita para os passageiros enfileirados.

— Nancy! Não faça isso!

Shut up, Robert! Senhores — ela volta a falar em voz alta — eu carrego muitos dólares! Podemos fazer negócio!

Que fique registrado que Nancy e Robert conseguiram embarcar no lugar de dois amigos universitários, que gentilmente cederam os seus assentos. E que conste o que aprendi nesse episódio. Embora não notemos, o “volte em quinze dias” é uma ordem imprecisa, em que “quinze” sempre quer dizer “catorze”. Os gringos, inconformados com essa brasileiríssima confusão, que tentem entender a nossa estranha lógica.

8 respostas em “Brasileiríssima confusão”

Minha professora de portugês costumava dizer que viraríamos brasileiros quando aprendessemos a “dar um jeitinho”. Eu ainda não cheguei ao nível de Nancy e Robert kkk

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