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crônica

Bom dia!

“Bom dia!”, eu lhe digo.

Nada.

As portas do elevador ameaçam se fechar. E eu fico encarando o vizinho, ainda à espera do seu “bom dia”.

Nada. Impaciente, o homem ameaça entrar no elevador antes que eu saia.

Cai a minha ficha. Eu saio. O vizinho entra. As portas enfim se fecham.

Eu saio pela portaria e começo a correr. Enquanto escuto um podcast, fico pensando: qual é a dificuldade de se desejar um bom dia a um vizinho? Ou a qualquer alma viva com que se cruze?

Paro de correr. Desfruto de alguns minutos de caminhada naquele treino intervalado. Cruzo com uma mulher caminhando com seu cachorro.

A não resposta do meu vizinho continua me incomodando.

Eu nem o conheço direito. Sequer sei o seu nome. Não importa se um estranho resolve me ignorar. Não faz a menor diferença.

Volto a correr. A mulher do podcast continua falando pelos fones de ouvido. E eu não estou prestando atenção já faz tempo.

Mas faz a diferença. Por quê?

Ultrapasso um casal de idade. Volto a caminhar.

Talvez porque eu seja educado. Ou porque nem todo mundo é educado, afinal.

Passo na frente do prédio de paredes verdes. Uma mulher está saindo com duas meninas em uniforme escolar azul e com mochilas rosas.

Talvez eu tenha ficado tão chateado porque espero que os outros sejam educados. Ou que se comportem da forma que eu julgo educada, pelo menos.

Contorno a praça e inicio a volta para casa. Começo a correr.

É isso, não? O meu problema é que crio expectativas sobre o comportamento dos outros. Se eu dou bom dia, acho natural que os outros retribuam da mesma maneira. Eu devia é ter pena de mim.

Paro de ouvir o podcast. Se não estou prestando atenção, qual é o sentido? Cruzo com a mulher com suas duas meninas carregando mochilas rosas.

“Bom dia”, uma das duas me diz.

Surpreso, eu paro de correr.

“Bom dia”, eu lhe retribuo.

“Bom dia”, diz a outra menina.

“Bom dia”, diz a mãe apressada.

“Bom dia”, eu retribuo sorrindo.

Volto a correr. E me dou conta de como é bom ser gentil. E de como é gratificante quando se é gentil em troca.

Entro no meu prédio. Chamo o elevador e espero.

Sinto uma pontada de raiva e desejo que o vizinho saia pela porta, cruze comigo e se retrate.

As portas se abrem. Ninguém.

Eu entro e penso: qual é o sentido de tanta raiva? Eu deveria é ter pena do vizinho mal-educado.

Por Guilherme Formicki

Guilherme Formicki é escritor, arquiteto e urbanista. Desde pequeno, adora escrever. Na escola, ganhou seu primeiro concurso de redação ao escrever sobre uma nota musical presa dentro de uma flauta. Mais recentemente, sua coletânea Pranto e Outros Contos, disponível no Wattpad e na Amazon, ganhou o primeiro lugar no Concurso Diamantes Raros, segundo lugar no Concurso Fique em Casa e terceiro lugar no Concurso Literário Novos Talentos. Guilherme também publicou o conto “Eles” na revista LiteraLivre de Julho/Agosto de 2020.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 2016, Guilherme obteve o título de mestre em Planejamento Urbano em 2019 pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá, recebeu uma bolsa Lemann e ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação mais comprometida com justiça social. Guilherme também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SEHAB), onde participou da urbanização de 7 favelas e auxiliou mais de 74 mil famílias entre 2014 e 2016. Guilherme atualmente concilia a sua dedicação aos estudos urbanos com a sua paixão por escrever.

2 respostas em “Bom dia!”

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