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crônica narrativa

BAR

Bar, luzes fluorescentes iluminando o salão, mesas vazias, balcão com dois clientes; estão bêbados. Um grito da porta, “tem Antarctica?”, emerge a resposta num grave sotaque nordestino, “só Brahma, Itaipava e Skol!”, a mulher para e reflete por alguns segundos e decide pela Brahma. É uma mulher magra, aspecto encardido, pernas finas de passarinho magro e vestido de chita.

Os bêbados discutem e se abraçam no balcão. São felizes como a maioria dos bêbados, estão com suas doses acima. Um homem entra e pede um cigarro, “um Free”, pega o maço, paga ao atendente e sai com a pressa habitual da nossa contemporaneidade. Os bêbados refletem, já não conseguem coordenar os movimentos ou as palavras. Entra um senhor preto que vende uns chapéus com nomes de clubes, os bêbados, um deles, acaba por comprar um chapéu do Fluminense. A cerveja trepida nos copos e na garrafa que circulam pelas mãos trôpegas dos alcóolicos, uma senhora observa da porta com um casaco, cachecol e alguns trapos enrolados num pano negro.

A discussão inflama entre os bêbados. É impossível compreender o diálogo, estão sem controle nos músculos das faces e as bocas e línguas mexem desordenadamente. O que devem pensar suas esposas ou filhos? Ou na verdade, ninguém. Podem ser solitários como eu. Um homem de aspecto jovem entra e pede sua dose de cachaça, prova o líquido amargo, faz uma cara de sofrido, dá as costas e sai caminhando firme: entrou, sustentou seu vício e partiu para sua jornada de volta ao lar; ou não, pode só estar abrindo os trabalhos.

Novas pessoas chegam, a geladeira pisca sua luz como numa discoteca, clientes pedem queijo e sorriem. Um vento frio sopra pela porta lateral, um senhor interfere na conversa desconexa dos bêbados, a senhora da porta entra e segue até o banheiro. Dois clientes entram e um deles conversa com o garçom, gesticulam bastante e não dá pra entender o que eles falam. Um dos clientes chama o garçom, “Manel!”, interrompendo a conversa do rapaz. Os dois clientes novos se retiram, a senhora da porta volta ao seu canto.

O tempo passa e vai acabando minha estada nesse bar. Pessoas passam pela porta e seguem para os seus destinos, nenhuma olhada para dentro. Entra uma senhora loira de sobretudo, põe as mãos no balcão, senta no banco giratório e diz, “Manel, quero uma água”, o garçom traz uma garrafa, “aquele copo de um real”, ela diz.

Todos os movimentos são irrelevantes, pessoas de todos os tipos; sofridas ou não. O mundo nada sabe do que acontece nesse pequeno espaço. Eu continuo observando, os bêbados continuam a sua conversa, o vento frio continua soprando, a luz da geladeira não para de piscar, a luz fluorescente continua a iluminar e o mundo não sabe o que essas pessoas pensam ou sentem.

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