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Banheiro de aranha

Eu não sei quando foi a primeira vez; deve ter sido quando tinha meus nove anos. Acordei sentindo uma leve coceira no lábio superior. Também não lembro se comentei com minha mãe antes de ir para a escola. Só lembro que a coceira aumentou e se transformou em pequenas bolhas d’água. Meu lábio foi ficando levemente inchado. Quando voltei para casa, minha mãe percebeu. Pegou meu rosto pelo queixo, virou minha cabeça de um lado para outro e fez cara esquisita. Chamou minha avó, a mãe dela, que na época morava com a gente. Ela decretou:

— É mijada de aranha.

Virei meus olhos para ela, o rosto eu não podia, trancado entre as mãos da minha mãe. “Mijada de aranha?”, pensei. “Como assim?” Eu não era muito de ficar debatendo assuntos, então ouvi e não perguntei mais detalhes. Só que aquilo não saía da minha cabeça. Eu ficava me perguntando, apavorada, como que uma aranha havia caminhado pela minha boca, feito xixi e eu nem havia sentido nada. Era uma cena inimaginável para mim. Eu, que desde sempre tive pavor de aranha. Aquele filme, Aracnofobia, eu não via nem amarrada. Eu sou daquelas pessoas que não pode nem ver foto de aranha que já se arrepia toda.

Tenho uma vaga lembrança de uma vez em que meu pai nos levou para conhecer um terreno, acho que ele tinha comprado. Era no meio do mato, no alto de um morro. Eu não me lembro de muita coisa, só do medo das aranhas. Acho que passei o tempo todo em cima de um banco, com medo de pisar no chão.

Mas, sobre a mijada de aranha, minha mãe descobriu que deveríamos benzer o local afetado. Era a única cura, segundo os entendidos. Sendo assim, ela descobriu o endereço de uma senhora e fomos as duas até a casa da benzedeira.

Lembro que era uma casa de madeira, bem simples, com uma varanda na frente. Ali, havia algumas plantas e uma cadeira. Ela pediu que eu me sentasse e minha mãe explicou que eu estava com mijada de aranha, o que era óbvio ao se olhar para mim, mas enfim. A mulher, então, entrou na casa e voltou com um copo de água na mão. Eu, sentada naquela cadeira, olhava com curiosidade para a cena. Eu não fazia ideia do que era esse negócio de benzer, tinha até um pouco de medo, será que ela era bruxa?

Ela se posicionou na minha frente, segurando o copo com uma das mãos e fechou os olhos. Ela não pediu que eu fechasse, então fiquei olhando o que ia acontecer. Imaginava a água começando a rodar sozinha, ou mudando de cor ou ela se transformando em algum ser estranho. Depois de ficar em silêncio por algum tempo, ela erguia a outra mão e fazia movimentos por cima do copo, recitando palavras que eu não consegui entender, nem nas muitas outras vezes em que fui lá depois, quando a tal da aranha tornou a aparecer.

Quando ela terminou o falatório, abriu os olhos e me alcançou o copo. 

— Bebe tudo.

Eu sempre fui muito obediente e, por mais medo que eu estivesse sentindo naquele momento, eu bebi tudinho. Nos despedimos e voltamos para casa. Três dias depois, eu estava curada. Era incrível. Como deu certo da primeira vez, eu ainda voltei lá algumas vezes durante a minha infância. 

Foi assim até eu entrar na adolescência. De repente, algo que não me incomodava muito, passou a ser um empecilho terrível na minha vida social e amorosa. Eu precisava resolver aquilo, talvez matar a tal da aranha que vivia me perseguindo. Então, um dia, lendo uma revista, me deparei com uma reportagem sobre uma doença chamada Herpes e pensei “então é isso!”. Ela explicava a característica cíclica da condição — motivo do sucesso da benzedeira? — e informava que não havia cura, eu teria que conviver com aquilo para sempre. Fiquei um pouco chateada, mas um motivo me deixou bem feliz: eu descobri que não era banheiro de aranha.

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