Categorias
crônica

AS FOLHAS

plantas, folhas, livros

É uma janela de frente para uma rua pouco movimentada. Pouco movimentada, mas os carros e as pessoas marcam presença constantemente. Três vasos de plantas dão as cores esverdeadas no quadrado sobre uma parede ainda pintada de salmão. Da distância que observo a janela não consigo ver quais espécies vivem dentro dos vasos. A janela é o silêncio, a contemplação de uma cidade tão próxima e tão distante. A folhas emergem da terra, dão vida a madeira pintada de branco que as cercam. De onde observo, vejo o negro do interior da casa destacando a vida que rege o poder das plantas. Eu as contemplo e elas contemplam a rua, conversando entre si – acredito eu, é claro, que as plantas conversam entre si. Nossa pouca sensibilidade não nos permite ouvir as plantas. Dona Zica conversava o que as rosas, sabia as suas aflições e alegrias. Nem Cartola conseguia ouvi-las: quanta sensibilidade existia no coração daquela mulher.  

Mas voltando a janela: acendi o cigarro. Enquanto jogava fumaça ao vento leve que cruzava a rua, diante da escuridão da janela, brotaram movimentos. Um senhor se aproximou da janela, olhou a rua, as pessoas que caminhavam, os carros que passavam e me olhou. Da sua face transformada pelos anos passados pela vida, me entregou um sorriso. Subitamente me entregou um cumprimento. Retribui o gesto com um sorriso tímido e um aceno de mão. Não o conhecia e tampouco o tinha visto por aí. Mas havia poesia naquele gesto amigável, tinha solidariedade e carinho alí. Tanta poesia havia que me recordou Álvaro de Campos a acenar para o Esteves, defronte à tabacaria. Continuei mirando a janela florida e o senhor levantou um antigo regador de metal e, lentamente, começou a regar uma por uma as plantas. Despejava lentamente a água e percebi o movimento constante da sua boca; ele também conversava com as plantas, também as escutava. Quanta sensibilidade havia nele. Eu poderia estar equivocado, pois ele apenas poderia acreditar que falava com elas, eu estava a uma boa distância. Mas pouco importa, gosto de acreditar que também as ouve. Ele sorria em cada despejar d’água e sorria e falava e as acariciava. Parecia que elas ficavam mais verdes; pareciam sorrir em cada toque da água fresca e das mãos experientes de longos anos por esse planeta. A vida borbulhava em cada galho, em cada folha e até me pareceu, da distância em que me encontrava, que uma flor nasceu em uma delas. A beleza da cena pode ter me feito ver coisas, ver a flor brotar. As plantas agradeciam o banho vespertino, agradeciam o carinho dispensado. Elas o amavam. O senhor terminou de banhar as companheiras, falou mais algumas palavras e, mais uma vez, acenou para mim, sorriu e sumiu na escuridão da casa. Fiquei mais alguns minutos olhando a janela e já não mais escutava o movimento da rua e não percebi que meu cigarro tinha acabado. Foi quando acreditei ver as plantas me acenando e me dizendo adeus, exigiam que eu seguisse a vida, seguisse vivendo atrás da realidade que é a vida. Me imploravam para fazer o que elas não podem sozinhas: caminhar. Correr o mundo sem destino, sem pensar que a vida pode acabar amanhã ou a qualquer momento. As três gritavam sorrindo: “vai lá, corre, não deixe a vida passar, pois ela passa sem a gente sentir e tempo é precioso, não se perde com coisas banais”.    

Acenei para as três, me pareceram retribuir, porque elas são das que tem o prazer em fazer os outros felizes. Dei as costas, entrei no sebo onde os livros me esperavam, acendi outro cigarro… fui viver a vida do meu jeito e atender o desejo apaixonado das minhas novas amigas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *