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A NOITE TODOS OS GATOS SÃO PARDOS

    Uma noite de vento gelado, início de primavera na colônia do pau-brasil; mais precisamente na Guernica dos trópicos. Descendo a rua, vi um gato. Ele deitado, parecia dormir. Seu pelo negro, pontas das patas brancas e esticadas, relaxadas na noite escura, nublada e sem lua. Gatos dormem 16 horas por dia, nas outras oito eles caçam, brigam por território e amam. Amam um amor barulhento, mas tão amoroso quanto os amores silenciosos. Posso dizer que tenho inveja dos gatos, das suas muitas horas de sono, da sua solitária embriaguez, de um eterno apaixonado, que os permitem demonstrar em pequenos gestos o que não conseguimos demonstrar com palavras. Apesar das belezas que a vida entrega na bandeja, em tempos nublados, o melhor a se fazer é viver os sonhos que o sono de 16 horas nos proporciona. Certos eram os egípcios que admiravam os gatos, essa galera entendia do riscado.   

    Invejo sim os gatos. Não posso deixar de admitir um sentimento tão presente em mim. “É impossível ser feliz sozinho”: compreendo. Mas nem os gatos são solitários, eles apenas reservam o tempo necessário para fazer qualquer coisa em equipe e a solidão que eles se permitem, acaba se tornando o momento de paz. Pouco lhe importa se querem lhe dar carinho, quem escolhe a hora e o lugar é ele. Decisão única e pessoal de estar só, receber ou dar carinho, comer ou viver é apenas dele. Convenções sociais para os gatos? Não existem essas regras no manual gatesco. No manual gatesco existe apenas uma pergunta e uma exclamação: Regras? Não há regras! “Danem-se os dogmas”, para os gatos a liberdade é a única expressão a ser exercida. Onde liberdade falta a nós, nos gatos lá se esconde. Enquanto os gatos dormem, estamos acordados cagando as paredes do mundo. Meus queridos gatos, vocês deveriam estar acordados e todos nós dormindo. Na verdade não parece que estamos acordados mesmo. 

 O que podem os gatos senão serem donos da sabedoria libertária? O avesso do que faz e desfaz o ser humano? Enquanto ele dormia, esperava o melhor momento para fazer o que lhe desse na telha. Eu, um ser insignificante, andava apressado para casa, estafado, com o coração apertado, com a cabeça explodindo e desiludido com a vida que o nosso tempo nos entrega. A vida é dura, sempre foi. Mas hoje em dia “a coisa aqui tá preta”. 

No silêncio noturno, no breu da noite – a noite todos os gatos são pardos – ele sai gingando pelos muros, telhados e recantos, bamboleando a malandragem natural dos bem vividos. Sabe o que quer, deitado, parado no tempo, sentindo o vento bater nos fios esticados do bigode à Salvador Dalí e tem no mundo um campo aberto de oportunidades. E eu indo para minha casa revoltado com a vida. Azar o meu que não sou gato. Se ele pudesse se expressar em palavras, seriam estas. 

Nesse instante ele está lá deitado ou não. Eu escrevendo como um trouxa essas medíocres palavras sem sentido, tentando me refugiar da doença em que o mundo se encontra e aquele gato preto e branco na mente. Acho que estou envelhecendo, adoecendo e percebendo, absolutamente, que os gatos estão certos em manter o mínimo de contato possível com essa ordinária espécie chamada humana.  

2 respostas em “A NOITE TODOS OS GATOS SÃO PARDOS”

Boa noite, Walmor. Amei! Você está certíssimo! Os gatos são inteligentes e independentes. Já tive muitos e muitos gatos, agora tenho uma que apareceu aqui em casa de mansinho com uma ninhada e foi ficando… Caímos na besteira de dar-lhe o nome de Lady e ela acreditou. RS. Agora é a dona da casa e de todos nos. Arranjou um marido, o Tonhão que ela convida para jantar e entrar no meu quarto sem pedir licença. Às vezes se queixa das porradas que ele lhe dá. Mas eles se amam!

Finamente, não tem como não gostar dessa Lady mimada, manhosa, carinhosa (quando quer) esperta e que às vezes me traz de presente, passarinhos, ratinhos, gafanhotos e até uma cobrinha verde. Tudo isso colocado perto da minha cama. Ah! eia dorme comigo.

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