Categorias
crônica

A morte de Bárbara Schneider

– Assassino! – sussurro para baixo da cama. Lá, bem no fundo, atrás das malas, entre bolas de cabelo e poeira – e agora também entre pequenas penas cinzas – lá onde a vassoura mal chega, Salém se entrincheirou com sua presa, enquanto acima dele, no colchão macio e com a máscara protegendo os olhos da luz da manhã, Larissa continua dormindo. Por isso estou falando baixinho.

– Seu miliciano-psicopata-pervertido-sem-alma!

Óbvio que Salém pouco se importa com meus xingamentos sussurrados e continua cutucando sua vítima com o focinho, pegando-a na boca só para logo em seguida soltá-la novamente, jogando-a para cima e deixando-a cair. Com o traseiro levantado, o rabo serpenteando de um lado a outro e os olhos arregalados, se delicia com a agonia da pobre criatura em penas, com o poder sobre vida e morte. Está ronronando tão forte que a qualquer momento pode acordar a Larissa. Nesse momento, ele dá uma patada mais forte que faz o corpinho teso rodopiar sobre o chão até sair ao pé da cama. Só aí, à luz do sol, vejo de quem se trata.

– AH NÃO, SALÉM! LOGO ELA?? COMO É QUE PODE?!

Ao meu lado, a Larissa senta na cama de um golpe ao mesmo tempo que tira a máscara dos olhos.

– O que que foi? – pergunta com a voz assustada.

– Salém matou Bárbara Schneider.

– NÃO ACREDITO! CADÊ VOCÊ, SEU ASSASSINO-MILICIANO-PSICOPATA-PERVERTIDO?!

Cuidadosamente recolhemos o corpo sem vida do chão do quarto e o enterramos no jardim. Bem embaixo da pitangueira, entre cujos galhos, bem encaixadinho, estava seu ninho.

– O que será dos ovinhos? – pergunta Larissa, enxugando uma lágrima.

– Olha, não sei aqui, mas lá na Alemanha os pais respondem pelas besteiras dos filhos…

– É, você tem razão… Não tem outro jeito…

– Pois é, vamos nos revezar: duas horas eu, duas horas você.

Por isso, ao mesmo tempo que estou escrevendo este último adeus a Bárbara Schneider, estou chocando os três ovinhos azulados dela entre as coxas, enquanto Larissa está cuidando da criação de minhocas. É o mínimo que a gente pode fazer.

Descanse em paz e não se preocupe, dona Bárbara. Vai dar certo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *