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A irmã da mulher do caseiro

Quis o destino que, além de mim, morasse outro escritor aqui no condomínio Bosque. O célebre Paulo Caldas, autor de República dos Bichos, Porto dos Amantes e Asas, para que te quero?, entre outros livros. Paulo – vou chamá-lo pelo primeiro nome, pois a proximidade da moradia e o fato de já tê-lo visto, na bica, de sunga me concede certo grau de intimidade – também escrevia e editava o Bosque News, jornal mensal em que antigamente se comunicavam as novidades do condomínio: decisões tomadas nas reuniões, anúncios sobre as eleições do síndico, aniversários de moradores, mortes de funcionários, brinquedos perdidos no parquinho, informações sobre a drenagem das ruas, manutenção do açude, assim como queixas sobre cachorros cagões e infrações felinas. Havia até uma pequena seção artística no final do jornal onde se publicavam fotos amadoras de jacarés ou guaxinins, enviados pelos próprios condôminos. No ano passado, porém, a produção do Bosque News cessou e deu lugar ao grupo de WhatsApp. Função e nome continuam os mesmos – a diferença é que não é mais meu amigo Paulo que dita o teor, forma e estilo das notícias, garantindo assim certa qualidade e nível na comunicação: agora é todo mundo. Todo mundo menos eu. Vez ou outra, ele ainda insiste em me botar no grupo para ficar por dentro dos “acontecimentos”, mas, no primeiro B.O. entre vizinhos, saio correndo. E é por essa minha falta de paciência com o ser humano que vez ou outra realmente perco alguma coisa relevante. Tipo:

Hoje o IBAMA realizará soltura de animais silvestres no nosso condomínio. Às 15h na beira do açude maior.

Ou ainda: Condômina acha bebê-preguiça desamparado na rua das Jabuticabeiras (imagine aqui uma foto do minúsculo ser descabelado, quase só braços e pernas, nas mãos de uma senhora).

Ou, então, um vídeo que mostra uma surucucu rosa e enorme atravessando a rua em frente à casa de uma vizinha. “Tchau, cobra”, ouve-se a voz da filhinha, quando a venenosíssima finalmente desaparece no mato.

Provavelmente você está se perguntando o que é que o Bosque News, a sunga do Paulo Caldas e o IBAMA têm a ver com a irmã da mulher do caseiro, não é? Pois bem. Como Paulo sabe que não suporto o grupo virtual, mas adoro cachorros e bichos em geral, vez ou outra me manda uma informação quente por fora. E a última foi:

Essa cadela foi abandonada no nosso condomínio, você pode salvá-la. Falar com Dona Lídia.

Não demora para chegar também a foto correspondente: uma Border Collie fofa que olha desconfiada para a câmera.

Puxa, Paulo, já temos o Chico. Mais um não dá…, respondo.

Mas a Border Collie abandonada não sai da minha cabeça. Quem abandona um Border Collie? Minha veia de cronista não me deixa quieta. Resolvo falar com Dona Lídia.

Dona Lídia, boa tarde. Sou vizinha aqui do Bosque. Que história é essa da Border Collie abandonada?

Dona Lídia responde prontamente, porém com mensagens que me deixam mais confusa do que inteirada:

Obrigada pela atenção. A cachorra foi deixada na casa do caseiro pela dona.

Caseiro? No condomínio todo não conheço uma casa que tenha caseiro. Dona Lídia está digitando…

Ela não tem condições de criar.

A senhora está dando lar temporário para ela?, pergunto. Ou sabe quem está cuidando dela?

A mulher do caseiro tá cuidando. Mas não tem condições, repete.

De novo o misterioso caseiro. Ela continua:

Eu soube da minha filha porque a mulher do caseiro é irmã da empregada dela.

Agora estou confusa mesmo. Tento focar nas informações relevantes:

Então a cadela não está aqui no condomínio? Eu tinha entendido que estava…

Pelo visto, Paulo me mandou fake news…

Tá não. Está a uns 10 km daqui.

Olha a checagem dos fatos, Paulo! No jornal do Bosque News isso não teria acontecido! (Teria?)

Peço à dona Lídia o contato da filha pra pegar com ela o número da empregada e pedir a essa o número da irmã para perguntar diretamente à mulher do caseiro sobre a situação da Border Collie. Não posso adotar, mas talvez possa ajudar de algum outro jeito.

Depois mando uma mensagem para Paulo:

Paulo, a bichinha não foi abandonada aqui no condomínio não, visse? O que aconteceu foi que a dona abandonou a cachorra na porta da casa do caseiro, que é marido da irmã da empregada da filha de Dona Lídia. Isso dá pelo menos uma crônica, se não uma telenovela completa, não acha?

Por Yvonne Miller

Yvonne Miller nasceu em Berlim em 1985, mas considera-se cidadã do mundo. Atualmente mora, namora e se demora no Nordeste do Brasil. Escreve contos, crônicas e literatura infantil em alemão, espanhol e português. Tem textos publicados em coletâneas como Paginário (Aliás Editora), Histórias de uma quarentena (Expresso Poema Editora) e é colunista do coletivo sócio-literário @bora_cronicar. Além de ficcionista é autora e redatora de livros escolares.

6 respostas em “A irmã da mulher do caseiro”

Morrendo de rir aqui. Se eu que nasci e cresci neste idioma considero a comunicação via Whatsapp um campo minado, posso imaginar você…

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