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A crônica da minha morte

É um dia qualquer de um ano qualquer. Meu pâncreas dói como nunca, o suor escorre pelos poros como uma cachoeira e a dor insuportável faz com que meus olhos se fechem. Não percebi que é a última vez que vejo a luz do sol. Algumas pessoas correm para me levar aos cuidados de algum médico, mas o tempo final chegou para meu corpo destruído pelo álcool. No carro em que estamos eu respiro pela última vez o ar poluído desta cidade imunda. Desde a infância fui abraçado por um amor interminável pelo álcool, um amor que nunca me deixou só e sempre esteve ao meu lado nos momentos ruins e nos bons – mais ruins do que bons. Meu corpo se despede deste mundo nesse instante, era o fim de uma jornada de muitos fracassos e poucas alegrias. Os amores morreram e os bares também, fim da linha de um trem que já havia saído dos trilhos no início do percurso. Fui recebido pelos médicos, nada mais podem fazer e levam meu corpo para um frigorífico humano, deitam-me numa gaveta gelada para repousar na espera de algum dos meus que me retirará daquela fria. Um dia se passou, preparam meu corpo e estou deitado na caixa de madeira que, nesse momento, se compara ao útero da minha mãe que me trouxe a esse hospício que se chama mundo e agora me empacota para levar de volta. Olhos cerrados, pele completamente enrijecida, meu cérebro está desligado, não descarrega mais energia e meu coração é uma massa muscular inativa. Completamente nu, como sempre desejei – sem flores – espero a festa que deverá ser feita sobre o meu corpo sem vida.

A caixa do fim dos tempos é levada para o meu quintal e muitas pessoas já estão à espera da chegada do bêbado inútil. No freezer já estalam as cervejas que já tinha deixado pagas para esse momento divino. Posicionam-me no centro do quintal, apoiado perfeitamente sobre cavaletes simetricamente posicionados e abrem a tampa funeral. Meu corpo jaze como cheguei a este mundo e a roda de samba que estava a minha espera, quando vêem meu corpo, despeja no ar as notas de Nelson Cavaquinho; “Sei que amanhã/ Quando eu morrer/ Os meus amigos vão dizer/ Que eu tenho bom coração… E é só o início da festa. Alguns batem na madeira vagabunda da minha caixa mortuária, meu corpo sacoleja entre os cantos, pandeiros tamborins, surdo, tantã, reco-reco, repique de mão e os acordes de um violão de sete cordas que acompanha o momento ilustre. Alguém coloca o maço de Marlboro sobre o meu peito, só falta a meia garrafa de Jack Daniels para concluir o meu desejo. Mas essa ficaria para o final, pois os mais chegados ainda beberiam a metade, era uma ordem minha. Caixa aberta, corpo nu ao vento, todos podem apreciar meu corpo decrépito no compensado cru. Triste dos que observam tal cena dantesca. Mulheres, trans, gays e todos os gêneros existentes, se jogam sobre o meu corpo desejando a minha volta e as lágrimas lavam a minha pele que inchava e começava a tomar uma cor roxa – tudo bem preparado pelo meu compadre que ficou encarregado dessa contratação de desesperadas chorando na minha despedida. O samba não para e os copos não param vazios nas mãos dos visitantes deste momento mórbido e festivo. Na brasa a carne doura para alimentar os festejantes de uma morte anunciada.

Familiares se mantêm estarrecidos com o evento produzido pela minha morte. Meu irmão puxa sambas que eu admirava e passistas da Portela se requebram ao som do batuque. Nada poderia parar a festa que estava formada. Algumas pessoas delirantes pelo álcool derramam cerveja sobre a minha boca cerrada e o líquido dourado escorre pela minha face quase petrificada. Pássaros insistem em pousar aleatoriamente sobre meu corpo, acabam por fugirem assustados pelo movimento humano sobre eles.

Sorrisos nas bocas, carne dourando na brasa, corpos suados e o sol derretendo meu corpo morto envolto na madeira. Bocas me beijam a face, outras me beijam a boca, outros apenas tocam o meu rosto, cantam defronte aos meus olhos e jogam o bafo do precioso álcool sobre meu nariz sem olfato. Os raios de sol vão sumindo lentamente, a noite se faz presente e na manhã seguinte eu não estaria mais aqui no meu velho quintal. No meio da madrugada me colocam no chão, fecham a caixa de madeira e as passistas sambam sobre o vidro que permite que meu rosto fique exposto aos olhos do mundo. Os convidados se amontoam em minha volta, a música segue pelo ar e as sambistas se revezam sapateando sobre minha caixa. A noite segue até o momento em que o som para e quase todos dormem pelo chão, embriagados, de pança cheia e, apenas meu primo se mantém acordado e vela meu corpo com um copo cheio na mão e o cigarro entre os dedos da outra.

Os primeiros raios de sol apontam no céu e começam a queimar os bêbados que se aglomeram ao meu lado. Precisam acordar, tenho que chegar a tempo de ser torrado no fogo em breve. Quase grito para levantarem, está na hora. Mas isso é impossível. Os primeiros olhos se abrem, olham os relógios e percebem que já está na hora de partir. Bêbados ainda, me levantam cambaleantes e me levam trôpegos até o carro que me espera do lado de fora. Quase caí no chão antes de entrar no carro, que dificuldade para me posicionar nessa mala. Alguns bêbados caem, mas me seguram e eu consigo entrar. Fico feliz que todos estejam assim, foi o que eu sempre pensei para esse momento. O carro sai e eu não sei como os meus bêbados chegarão ao cemitério. Vão chegar, é questão tempo. Apesar da areia da minha ampulheta já ter chegado nos últimos grãos por essas paragens. O carro segue, não sei por onde passo, em que velocidade vou, só sei que chego. O carro para. Para em frente à entrada do crematório a espera dos meus companheiros para a última visão de mim. Inacreditavelmente, mas chegam todos.

O carro abre a porta traseira novamente, os mais chegados se aglomeram para retirar a minha caixa maltrapilha que me envolve e decidem que vão levar até a entrada do crematório. Tem mais cheiro de álcool pelo ar do que o formol que mantém meu corpo ali ainda. Tropeçando em seus próprios pés me carregam num sacolejo sem fim até que o da frente tropeça em definitivo. A minha caixa tomba de lado, os outros não conseguem segurar e ela bate seca no chão, meu corpo salta e rola pelo cimento morno daquela manhã – tinham se esquecido de aparafusar a madeira. Alvoroço e correria para me colocarem de volta, o maço de Marlboro voa por uns metros, alguém corre para pegar e percebem que também se esqueceram de colocar a garrafa de Jack Daniels no caixão. Ele está debaixo do braço do meu primo – ele está guardando para mais tarde, não quer perder esse líquido precioso. Meu irmão toma a garrafa e a coloca nos meus braços com o cigarro. Estou de volta a caixa e dessa vez lacram, me levantam novamente e sigo minha última caminhada – mesmo que sem minhas próprias pernas e nos braços do povo etílico. Param na porta do crematório, me pousam numa maca para caixões e o cara que vai torrar meus átomos, percebendo que havia uma garrafa comigo, abre novamente a caixa e a retira – meu primo apressadamente a pega e coloca novamente debaixo do braço. Agora sim ele me leva para dentro. Da hora de torrar eu prefiro não falar, mas que o calor é uma coisa absurdamente grande eu não posso negar. Depois de algumas horas sou colocado em uma caixinha bem menor, mais confortável para guardar minha poeira. Sou entregue ao meu irmão que fica encarregado do momento final. Os bêbados vão saindo um por um em busca de suas casas, o sol paira no meio do céu azul, os pássaros cantam entre as árvores, sopra uma brisa refrescante e o último grão de areia da ampulheta cai.

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