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crônica narrativa

A careca peçonhenta do incompleto sorriso

O futuro é o sorriso incompleto esperando como hei de partir.

Desapareceu aos poucos.

É sabido que os fios de cabelo têm forte irmandade, não encontrada em nenhuma parte do corpo.  Ali, no couro cabeludo,  os filetes, feixes, madeixas e minorias, há um “sindicato” unido de força inequívoca. Não duvidaria que entre os fios de qualquer cabeleira palavras de ordem sejam gritadas: “nenhum fio solta a raiz do outro” ou “cabelos unidos jamais serão perdidos”.

Mesmo o solo fértil seca um dia. Os primeiros retirantes abandonam a antes rica e volumosa cabeça, deixando um rastro sem vida e pequenos tufos alvinegros nas laterais. E uma grandiosa testa nasce de curva não harmônica e no caminho declinoso são notadas rugas salientes e desarticuladas. 

Na contrapartida do sumiço dos cabelos, uma pelagem escrota abunda, lá mesmo, nas narinas e orelhas nos transformando em “aranhas” bípedes com pequenas floras horrorosas e incômodas distribuídas pelo corpo.

O desamparo final do homem é dente por dente, um a um, se despedem, como cônjuges de um relacionamento feliz, mas desgastado pelo tempo e o que estava por um fio, desta vez o dental, não está mais.  

O futuro é o sorriso incompleto esperando como hei de partir.

1 resposta em “A careca peçonhenta do incompleto sorriso”

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