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A boca mais solitária que a companhia de um paulista

Sem dentes e a prótese, a boca de Edivaldo está mais solitária que a companhia de um paulista.

Dente por dente, Edvaldo perdeu quase todos.

Sobrou um e muitos cacarecos. 

Agradeceu a pandemia pelo uso da máscara continuo e irremediável. 

Afinal, esconderia o que não tem. 

Falar cuspindo e soprando, Edvaldo não imaginava o incomodo de ficar banguelo. 

Procurou Florisval, o odontólogo amigo, que prometeu “à Boca” de alta definição.

Os dentes prometidos: brancos, completos e reluzentes, que o sorriso viraria um patrimônio e poderia ser declarado no imposto de renda. 

Para ter o sorriso completo, que mudaria a vida, haveria de ter dinheiro, bufunfa que nunca teve e muito menos viu.

Pediu grana ao pai, à mãe, a irmã e a avó contribuíram, a sogra e a cunhada não escaparam e até o Bispo (Pablo Bispo, um peruano que vivia na Bolívia e muitas coisas trazia de lá) deixou o dim-dim para o sorriso feliz.

Florisval apresentou Vanderval, o “especialista” em novas bocas.

Forte, imponente e intimidador, quase uma ofensa para quem constatava o novo sorriso de Edivaldo.

Três dias depois, a boca ficou mole, os dentes descolaram dos pinos. 

Outra cirurgia e os “Vals” deram o veredito: o sorriso ficou Ó.

Passaram sete dias: boca de caçapa. 

Os “Vals” diagnosticaram: é sistêmico, o problema é a sua saúde. 

Após trinta exames, Edivaldo ganhou o apelido de “Vaca Premiada” pela saúde intacta. 

Surpresos, os “Vals” foram investigar o motivo.

Há dois anos, os “Vals”, os odontólogos amigos, ainda não identificaram o porquê da “banguelice”.

Sem dentes e a prótese, a boca de Edivaldo está mais solitária que a companhia de um paulista.

Por Ednilson Valia

Ednilson Valia é jornalista há quase 30 anos, gosta de pensar, não admira pessoas que acordam cantando e estão sempre felizes. Para ele, a vida é uma causa perdida.

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